LANÇAMENTO - Competência na ponta dos dedos
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quinta-feira, 05 de janeiro de 2006
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Aeroporto de Valência, Espanha. Vencido pelo sono, Yamandu Costa dorme profundamente no ombro de outro extraordinário músico brasileiro, o baiano Armandinho. O take é rápido, mas o suficiente para sacar a afinidade mútua, inclusive quando bate a lassidão física. ''O Armadinho é maravilhoso, é meu irmão'', sustenta Yamandu Costa sem demonstrar o menor constrangimento. A cena está incluída nos extras do primeiro DVD que o violonista gaúcho está lançado pela gravadora Biscoito Fino. Há outras imagens bacanas como o encontro dele com o bruxo musical Hermeto Pascoal, na Holanda agregadas no item ''Tareco'', palavra de que define ''coisa'' no linguajar gauchês.
Tudo muito legal, bacana, mas o que impressiona mesmo é o show que Yamandú Costa registrou ao vivo, no Sesc Pompéia, em São Paulo. Foram necessárias duas sessões realizadas no dia 29 de abril do ano passado para que se chegasse ao resultado pretendido pelos idealizadores do projeto, dirigido por Hugo Prata e Márcio Soares e com produção de Maria Célia Borges. ''A vontade era fazer um DVD sem muita história, mas digno. Pedi apenas uma iluminação simples e um palco simples. Gostei do resultado'', analisa Yamandú.
De fato, parece não haver maiores preocupações com atitudes cênicas. E nem precisava. Afinal, a impressionante maneira como explora o violão de sete cordas ganha contornos quase ''mediúnicos'' ele parece entrar em transe quando executa uma peça. ''Eu não diria isso. Acontece que há pessoas que se doam à música sem fazer caras e bocas como eu faço. No meu caso, acho que é algo que tem mais a ver com impacto visual, para criar um diferencial'', explica. Então tá!
Em ''Yamandu Costa ao Vivo'' inclina-se à linhagem autoral ao todo sete temas próprios, de safra recente, com exceção de ''Chamamé nº 1'', do primeiro disco. Uma curiosidade: ''Susto'' recebeu nome durante o show. Há também releituras em que Yamandu busca, rebusca, desenha, redesenha, enfim, imprime seu selo de qualidade. Resgata Pixinguinha e Radamés Gnattali (''Suíte Retratos 1º Movimento''), reverencia Baden Powell (em ''Paz de Maria'' e ''Vou Deitar e Rolar'', essa em parceria com Paulo César Pinheiro), busca outra tradução para Caetano Veloso (''Sampa''), sinaliza Django Reinhardt (''Nuages'') e com arrojo encerra o DVD com um clássico de Geraldo Vandré (''Disparada'', composta com Theo de Barros).
Técnica, preciosismo e muita improvisação caracterizam as incursões de Yamandu tanto em território próprio quanto alheio. ''O que faço é dar uma nova idéia a uma forma, coisa de intérprete. Mas o lado autoral é o que cada vez mais tem importância para mim'', afirma ele que não consegue precisar quantos temas já compôs. Para a gravação, foram arregimentados músicos do primeiro escalão como Toninho Ferragutti (acordeon e também autor de ''Sanfonema''), além de amigos de longa data como Thiago Espírito Santo (contrabaixo elétrico), Eduardo Ribeiro (bateria) e Guto Virtti (baixo acústico). Resultado? Jam session pra ninguém botar defeito. Ou nobre música brasileira com sotaque jazzístico.
Quem já viu e ouviu Yamandu cujo nome de origem tupi-guarani significa ''o precursor das águas'' fica admirado com sua força artística. Não à toa ele, que se notabilizou nacionalmente ao vencer o Prêmio Visa Edição Instrumental 2001 ostenta, à revelia, é bom que fique claro, o título de maior revelação do violão brasileiro dos últimos anos. Vários são os adjetivos empregados à sua arte, inclusive no exterior. Aos 25 anos, o violonista gaúcho parece estar mais preocupado em cativar cada vez mais pessoas do que se acomodar a rótulos virtuose é o mais empregado. ''Não dou muita profunidade a essas coisas. O que eu quero é fazer um trabalho musical bonito e contribuir culturalmente para com o país'', diz ele.
Há muita verdade nas palavras ditas pelo instrumentista, que parece não querer alimentar elementos que rendam mitologias em torno de seu ofício. Segue apenas tocando em frente, sem fórmulas mágicas. Diz gostar de compor em aeroporto para afastar a chatice de esperar vôos, principalmente os internacionais e confessa que um tema já lhe veio à cabeça num lugar insólito: um banheiro, em Porto Alegre. Em outras palavras, as composições saem sem maiores enquadramentos rígidos: é fluente, intuitivo. Natural, natural. ''Eu ainda não consegui canalizar essa veia de fazer canção com letra '', admite. No entanto, diz futuramente, quem sabe, pode vir a registrar um trabalho em que se mostre também como cantor. ''Vai surgir a oportunidade na hora certa'', conforma-se.
Negócio é o seguinte: ainda está para surgir alguém que aponte um ''isso'' de Yamandu. E mesmo que surja, até lá o gaúcho boa-praça e talentoso certamente estará gravado seu nome na história da música instrumental brasileira.


