LANÇAMENTO - Chico Buarque e os Arcos da Lapa em DVD
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de novembro de 2003
Mauro Dias<br> Agência Estado 
O prédio da Fundição Progresso, no centro do Rio, quase sob os Arcos da Lapa, foi transformado, há duas décadas, em espaço cultural. É uma estrutura comprida, como condiz à de uma fábrica. O palco fica numa das extremidades da nave. Vêem-se, ao fundo, os prédios da cidade moderna - o cubo desencaixado do BNDES, os edifícios da Avenida Rio Branco.
Se o espectador voltar os olhos para a direita, verá, pelas janelas enormes, um outro Rio, secular: os Arcos, originalmente um aqueduto, por cima dos quais passam os bondes que levam a Santa Tereza, o sobradio velho da Lapa.
Contra esse fundo contrastante, foi gravado, em 1989, o show contido no DVD ''Chico'' ou ''O País da Delicadeza Perdida'', que a BMG acaba de lançar (73 min., R$ 45,00). Foi um especial encomendado pela emissora francesa de TV FR3. Às músicas gravadas no show foram acrescentadas cenas de arquivos diversos e trechos de filmes musicados por Chico. A direção era de Walter Salles e Nelson Motta. O trabalho foi exibido na França em março de 1990 e, no fim daquele ano, no Brasil, pela extinta TV Manchete. Comemorava os 25 anos de carreira de Chico Buarque.
Aquele cenário oferecido pela Fundição Progresso é ilustrativo da tese com que Walter Salles e Nelson Motta se orientaram, usada para dar sentido ao show-documentário: a de que, nos 25 anos decorridos até aquela data, a música de Chico mudou como mudou o Brasil. De um lado, que a Lapa bem representa, o convívio da classe média com os pobres, os malandros, o morro (''Contraste, mas não confronto'', resume Chico, num dos depoimentos gravados para o DVD). Do outro, aquela cidade que se isola e ignora os desfavorecidos (e a substituição da pequena delinquência pelo tráfico comandado pelas multinacionais das drogas).
O tema é reiterado pelo belo texto em off (sem autor declinado) narrado por Paulo José, contra cenas de um Rio ora inocente, ora violento, e acatado por Chico Buarque, nos seus curtos mas esclarecedores depoimentos, entre uma canção e outra (sempre com imagens em branco e preto; o show é em cores).
A música incidental, que ilumina os trechos documentais, faz parte da inocência: a bossa nova para uma Copacabana ou Ipanema que parecem hospitaleiros, idílicos; o samba antigo de carnaval para o desfile de blocos e corsos no centro da cidade. Mas a primeira música cantada por Chico não fala mais desse tempo: ''Rio de ladeiras/ Civilização encruzilhada/ Cada ribanceira é uma nação/ (...) Rio do lado sem beira/ Cidadãos/ Inteiramente loucos/ Com carradas de razão/ À sua maneira/ De calção/ Com bandeiras sem explicação/ Carreiras de paixão danada/ São Sebastião crivado/ Nublai minha visão/ Na noite da grande/ Fogueira desvairada...'' (''Estação Derradeira'', de 1987)
No tempo normal do show são dez canções, distribuídas por nove faixas. Gal Costa aparece para cantar com Chico em ''Samba do Grande Amor'', de 1983, e Gilberto Gil toca violão e canta com o parceiro a (injustamente) esquecida Baticum, de 1989. Nos bônus, roupa diferente, mas seis canções, em quatro faixas. A última delas, jamais por acaso, é ''A Volta do Malandro'' (''Eis o malandro na praça outra vez/ Caminhando na ponta dos pés/ Como quem pisa nos corações/ Que rolaram dos cabarés'), de 1985, feita para a filmagem, por Ruy Guerra, da ''Ópera do Malandro''.
Neste DVD, como raramente, Chico fala do pai, Sérgio Buarque de Hollanda, e de sua teoria do ''homem cordial'' - não cordial porque aceite tudo de bom grado, mas porque se deixa mover, para o bem e para o mal, pelo coração, em sua ânsia de romper barreiras, encurtar distâncias, fugir das formalidades: ''... o que pode dar numa raça generosa ou num povo até triste e amargurado.''
Chico engajou-se na primeira campanha de Lula à Presidência. O candidato perdeu, mas o compositor viu um País que poderia, nos braços da democracia, enxergar um futuro melhor. Mais uma vez, essa perspectiva pesa em sua música: o disco seguinte (''Dois Irmãos'') já dá a pista, com uma poesia menos engajada, mais... puramente poética. ''Talvez as pessoas se espantem de ouvir isso de mim'', diz ele, ''mas é uma necessidade'' - fazer poesia, pela beleza dela.
O show-documentário mostra imagens dos filmes ''Joana Francesa'' e ''Bye Bye Brasil'' (Cacá Diegues), ''Eu te Amo'' (Arnaldo Jabor), do documentário ''Uma Avenida Chamada Brasil'', de Otávio Ribeiro, entre outros; cenas de arquivo de José Tadeu Ribeiro e imagens de Marieta Severo e de Silvia Buarque, bebezinha, em Paris, durante o exílio do pai. E muito mais, num trabalho inteligente, crítico, franco, amoroso. A última fala de Chico: ''Não perco a esperança.''


