Oswald que amou Kaimá, amou Deise, Tarsila, Pagu, Julieta e... Maria Antonieta, a sexta e última mulher com quem se casou, aos 53 anos, e para quem escreveu ‘‘Cânticos dos Cânticos para Flauta e Violão’’, longo poema em que declara num dos momentos mais líricos: ‘‘Maria Antonieta d’Alkimin toma conta de mim’’.
  A história desse amor, que faz parte da fase madura do intelectual paulista, está no livro que acaba de ser lançado pela Edusp em parceira com a Imprensa Oficial de São Paulo e a Oficina do Livro Rubens Borba Moraes. ‘‘Maria Antonieta d’Alkimin e Oswald de Andrade: Marco Zero’’ reúne as memórias mais afetivas já publicadas sobre o polêmico modernista, autor do ‘‘Manifesto Antropófago’’ que, nos intensos anos 20, deu novo conceito e caráter à cultura brasileira.
  A filha de Oswald, a coreógrafa e cineasta Marília Andrade, é organizadora do livro junto com Ésio Macedo Ribeiro, escritor, fotógrafo e pesquisador. Ela também assina um texto de fragmentos e memórias, onde recapitula a vida com os pais. No total, a obra se divide em nove partes e dois apêndices, reunindo também 68 documentos entre fotografias, cartas, postais, bilhetes e manuscritos que levam a uma visão muito particular do poeta e escritor. Para o leitor, trata-se da transposição do mito para o homem, apaixonado, dedicado à família e descuidado da saúde, vivendo intensamente sem controlar as taças de vinho e os doces ingeridos sem regra, apesar da diabete. Uma visão tão clara de Oswald só poderia ser dada por quem conviveu prazerosamente com uma personalidade incompreendida. A lente que aproxima o homem é utilizada minuciosamente no texto mais revelador - ‘‘Evocações - Oswald de Andrade em Minha Vida’’ - memórias inacabadas de Maria Antonieta d’Alkimin que, alguns anos depois da morte do marido, em 1954, preocupou-se em pontuar afetuosamente a importância do escritor para a cultura nacional, temendo que ele caísse no esquecimento. Essas memórias inéditas - escritas em 1961 - aparecem contextualizadas no ambiente familiar e, antes de tudo, são a história de um casal em sintonia.
  A primeira vez que Maria Antonieta ouviu falar de Oswald foi em 1933. Ela relata que as referências iniciais vieram de Julieta Bárbara, quinta esposa do escritor, amiga de sua irmã e sua conterrânea de Piracicaba. Já nos salões, o que se dizia dele não eram coisas para serem repetidas. ‘‘Polígamo e comunista’’ eram palavras recorrentes e malditas, sobretudo entre as famílias do interior de São Paulo que temiam Oswald de Andrade, como ela mesma afirma, como uma espécie de ‘‘mula sem cabeça’’. Maria Antonieta cita o romance ‘‘Os Condenados’’, rodando no quarto da irmã sem que ela tivesse coragem de folhear suas páginas. Mal sabia que, uma década depois, viria a se casar com a ‘‘mula’’, num giro surpreendente do destino que a colocou decisivamente na vida de Oswald. Logo ela, 30 anos mais moça.
  Tudo começou com um convite inesperado, em 1942. Maria Antonieta, morando em São Paulo com a família, recebeu do escritor proposta para ser sua secretária. Ele preparava o primeiro volume de Marco Zero, obra ficcional que aborda o ciclo cafeeiro paulista. ‘‘Você gosta de literatura?’’ - perguntou Oswald - argumentando que precisava de ajuda para concluir ‘‘A Revolução Melancólica’’ , livro que pretendia inscrever no Concurso Interamericano de Romances. Maria Antonieta afirma que o sim ‘‘pulou’’ da sua boca. Um mês depois, em julho e pleno inverno paulistano, começou o trabalho de pesquisa. Em outubro, Oswald já demarcava o território da paixão entregando a ela um papel dobrado com as primeiras linhas de ‘‘Cântico dos Cânticos para Flauta e Violão’’: ‘‘Saibam quantos este meu verso virem / Que te amo/ Do amor maior/ que possível for’’.
  Oito meses depois, em 19 de junho de 1943 o ‘‘sim’’ pularia outra vez da boca de Maria Antonieta, que se uniu ao modernista contrariando a família que alertava sobre os pecados de Oswald. ‘‘Não arrume encrenca com esse homem, porque as mulheres que passaram pela vida dele foram todas pra rua da amargura’’, dizia sua mãe no início do namoro. Não teve jeito, ela foi em frente. Casou-se por procuração em Chihuahua, no Méxixo - já que ele tinha outro relacionamento oficial no currículo - e passou lua-de-mel no Rio, onde conheceu Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, o ‘‘silêncio’’ de Graciliano Ramos, o editor José Olympio e viu Villa-Lobos.
  Em 1944, ela iria com o marido a Minas Gerais, integrando uma caravana de intelectuais paulistas. A convite de Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, eles levaram a primeira exposição de pintura moderna aos mineiros. Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Sérgio Milliet, entre outros, estavam no grupo. Em BH, Oswald de Andrade fez a conferência ‘‘O Caminho Percorrido’’ em que arregaçava a distância intransponível de suas idéias com a de outros modernistas de 22. Distância conceitual e profundamente política. ‘‘Comigo ficaram Raul Bopp, Osvaldo Costa, Jaime Adour da Câmara, Geraldo Ferraz e Clóvis Gusmão. Abandonamos os salões e nos tornamos os vira-latas do modernismo. Veio 30. O outro grupo tomou os caminhos que levariam à revolução paulista de 32. Os vira-latas comeram cadeia, passaram fome, pularam muros, com exceção do poeta de ‘Cobra Norato’’ que estava no exílio de um consulado. É que a Antropofagia salvava o sentido do modernismo e pagava o tributo político de ter caminhado decididamente para o futuro’’. O leão rugia na noite de Belo Horizonte, um sobrevivente do embate violento dos anos sob o poder de Getúlio Vargas. Nos tempos magros, o escritor - que teve como pai um dos homens mais ricos de São Paulo - vendeu as obras que havia adquirido dos maiores pintores do século 20: Pablo Picasso, Miró, De Chirico, Tarsila do Amaral, alguns seus amigos pessoais. Muitas editoras recusavam publicar seus livros.
  Entre contas a pagar e a falta de reconhecimento à sua altura, Oswald viveria em São Paulo até morrer, em 1954. Nos últimos anos ainda produziu sofregamente. Em seus textos muitas vezes transparecem a amargura e profunda reflexão: ‘‘Eu digo que o tempo é o contrário do espaço. É a dimensão negativa. É tudo que nos nega e destrói, desde o pêndulo, até a namorada e o credor’’.
  Maria Antonieta d’Alkimin teve dois filhos com Oswald - Marília e Paulo Marcos. O texto ‘‘Evocações...’’, publicado agora, é uma amostra da sua preocupação e empenho para que a obra do titã não fosse esquecida. Ela fez inúmeros esforços para republicá-la. Essa obra seria revisitada nos anos 60 e 70 através do crítico Antonio Cândido, dos concretistas Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari e também do dramaturgo José Celso Martinez Correia - que montou a peça ‘‘O Rei da Vela’’, encenada em 1967 pelo Teatro Oficina.
  Depois da morte do marido, Maria Antonieta ganharia a vida como professora e teria destaque na rede pública de ensino de São Paulo. Em 1968, a musa sensível de Oswald ainda sofreria a perda do filho, Paulo Marcos, num acidente automobilístico. Em 1969, no Rio, ela foi caminhar entre as estrelas. No suicídio riscou brilho num salto. Morreu de dor a mulher a quem Oswald chamou de ‘‘minha Marília realizada’’.

SERVIÇO

‘‘Maria Antonieta d’Alkimin e Oswald de Andrade: Marco Zero’’, publicado pela Edusp, Imprensa Oficial de São Paulo e Oficina do Livro Rubens Borba Moraes. Organização: Marília de Andrade e Ésio Macedo Ribeiro.
Além das memórias de Maria Antonieta d’Alkimin o livro tem apresentação de Ésio Macedo Ribeiro e reúne textos de Maria Augusta Fonseca, Marília de Andrade, Paulo Marcos de Andrade, do médico Edgar Braga e de Vera M. Chalmers. Também traz cartas e bilhetes trocados por Oswald e Maria Antonieta, entre 1942 e 1954, dedicatórias e conferências do autor, além de uma carta que ele deixou aos filhos. 204 páginas. R$ 49,00.

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