LANÇAMENTO - Arte paranaense de A a Z
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de junho de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Depois de uma pesquisa que durou mais de três décadas, acontece hoje, no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, o lançamento do Dicionário de Artes Plásticas do Paraná. O livro está sendo organizado há oito anos pela professora Adalice Maria Araújo, com base em pesquisas pessoais iniciadas na década de 70. Mas mesmo depois de tanto tempo, entre pesquisa e edição, a obra ainda não chega completa. O lançamento de hoje contempla apenas o ''volume 1'' da obra, que terá outros três volumes.
O primeiro da série traz, além dos principais (e desconhecidos) nomes das artes plásticas paranaenses, uma síntese da história da arte desde os primórdios até a década de 80. Os verbetes contemplam apenas as letras de A a C. ''O material de A a Z está pronto, mas ainda não aprovei'', explica a autora do extenso projeto. Em entrevista exclusiva à Folha, ela conta como surgiu a idéia do projeto, as adversidades por quais ele passou , até sua aguardada conclusão. Pelo menos do primeiro volume. Acompanhe.
Como nasceu a idéia desse projeto?
Tudo começou quando eu contribui para o Dicionário de Artes Plásticas no Brasil. Então eu me conscientizei que o Paraná estava sem pesquisa nessa área. Na mesma época eu comecei uma coluna sobre artes visuais em Curitiba, que duraria quase 30 anos. Também foi uma forma de pesquisa das artes plásticas paranaenses, mas foi mais por causa do dicionário eu comecei a me centralizar na pesquisa. Fazia entrevistas, via exposições. Foi um longo processo.
Mas como surgiu a idéia de lançar o Dicionário das Artes Plásticas do Paraná? É um projeto ousado e ambicioso. Tem apoio de leis de incentivo?
Como projeto ele foi enviado pela primeira vez em 1997 para a Prefeitura Municipal e lá me aconselharam que eu fizesse a complementação da verba pela Lei Rouanet (lei federal). Na época levou um ano para ser aprovado por causa de mudança de administração. Ele foi aprovado na Lei municipal em 1998 e logo em seguida eu aprovei pela Lei Rouanet, mas pela lei federal só foi sair em 2001, graças à Conta Cultura.
E você teve uma equipe para ajudá-la? As pesquisas, como a senhora disse, começaram há mais de 30 anos, mas desde quando os verbetes estão sendo escritos já para o livro?
Desde 1998. Mas aconteceram muitos problemas. Houve um sistema muito persistente de espionagem cultural dentro do processo do projeto. Porque meus arquivos são os arquivos mais completos sobre arte paranaense que existem e muita gente tentou destruir isso.
O que você chama de espionagem cultural?
Um exemplo: nós chegamos a quase dois mil verbetes e esse arquivo foi destruído. Apagaram. O que a gente entende do que está acontecendo é que tem uma pessoa, um mandante, responsável pelos percalços durante o projeto. Até 2005 eu posso dizer que teve um espião dentro do projeto, tentando puxar o meu tapete.
A senhora tem provas disso?
Tenho. Deu para comprovar a data e qual computador apagou o banco de dados. Eu sei quem são as pessoas, mas não abri nenhum processo contra elas. Mas cheguei a prestar queixa na Delegacia de Furtos e Roubos. Também teve um outro episódio. Um dos coordenadores do projeto, que não quero citar o nome, tentou vender o verbete do artista Henrique Aragão para Prefeitura de Ibiporã. Quem me comunicou foi o próprio artista. Ele me telefonou e disse que estavam tentando vender e se eu cedia os direitos. Eu neguei. Isso foi um roubo. Foram coisas que você não acredita... Mas apesar de todos esses problemas, o projeto está sendo feito com muito cuidado. E agora ele tomou dimensões de uma enciclopédia.
Quantas pessoas trabalham nesse projeto até agora para ele sair do papel?
Chegamos a trabalhar com uma equipe de vinte pessoas. Tanto que, numa primeira versão, o projeto já está todo pronto, com verbetes de A a Z, mas eu não assino embaixo. Ainda falta bastante coisa. Acho que foi feito com pressa e como o Fernando Bini fala no prefácio, isso seria um trabalho para uns dez críticos de arte. No nosso caso, não foram críticos que trabalharam, mas pessoas ligadas à área. Hoje, estou com apenas duas pessoas trabalhando. Eu prefiro trabalhar com uma equipe pequena, mas de caráter confiável.
E qual o critério de seleção dos verbetes, dos artistas que integram o dicionário?
O dicionário não tem o critério de um salão paranaense, no qual só entram artistas contemporâneos com uma linguagem de vanguarda. O critério foi ter uma linguagem pessoal independentemente do estilo que siga. Então, tem desde o artista super intelectualizado até o artista primitivo. Porque o grande objetivo dessa obra é o levantamento iconográfico, quer dizer o levantamento de imagem feito no Paraná. Entram artistas plásticos, fotógrafos, alguns cineastas...
Ao todo serão lançados quatro volumes sobre esses artistas?
Sim. O primeiro tem 777 páginas e 1.108 verbetes. Sendo que a maioria dos dicionários tem de 150 a 200 verbetes de A a Z. Esse primeiro é A a C e começa com a síntese da pré-história e vai até os ano 80, abrangendo os principais movimentos, acervos, revistas especializadas. Enfim, faz um levantamento completo das artes no Paraná. Também tivemos muito cuidado com as referências bibliográficas.
E os outros volumes devem sair até quando?
Pelas dimensões do projeto e pelo cuidado, acho que deve ser lançado um volume a cada dois anos. Se fosse contar pela sociedade de consumo que a gente vive, tudo seria feito rapidamente. Em um ano estaria tudo pronto, mas sem a minha aprovação. Eu acho que a pesquisa precisa de todo o cuidado em relação ao conteúdo. Até a letra Z está pronto, mas eu não aprovei. Se quiserem podem publicar assim, mas não leva meu nome.
E quanto custou esse projeto?
Não sei exatamente quanto custou.
Nenhuma estimativa?
Não tenho nenhuma. Mas para as leis, apesar de eu ter ultrapassado o limite de tempo para entregar o projeto, a parte contábil sempre foi muito precisa. Então existe uma seriedade muito grande em tudo.
E qual a conclusão que você tira de todo esse projeto, depois de tanta dedicação, tanto tempo de pesquisa e tantos percalços?
Acho que a conclusão depois de tanta coisa que aconteceu desde o sumiço do banco de dados, até os outros problemas é uma grande lição de humildade.
E meu grande objetivo é que ele seja uma contribuição para os professores. Porque o que o professor de História da Arte no Paraná tem uma grande deficiência de material de pesquisa.


