Laura-o-quê? É com interrogação que você, provavelmente, também reagirá ao saber que uma coletânea da poeta Laura Riding (1901-1991) foi lançada no País. Embora desconhecida por aqui, ela integrou a vanguarda do modernismo norte-americano nas décadas de 20 e 30 publicando versos atordoantes e reflexões críticas provocativas.
O livro ''Mindscapes'' chega às prateleiras em edição bilíngue reunindo 43 poemas, fotos e fórum com textos assinados por poetas e estudiosos da obra da autora. A seleção e tradução é do londrinense Rodrigo Garcia Lopes, que levou sete anos para pesquisar e organizar o volume partindo de sua tese de doutorado defendida na Universidade Federal de Santa Catarina.
Laura confrontou os poetas e críticos de sua época excluindo-se de panelinhas e da política dos bastidores literários, que habitualmente consagra uns em detrimento de outros. Chegou a cutucar poetas ilustres como Auden pedindo para que eles parassem de plagiá-la. Sua trajetória foi repleta de episódios controversos: tentativa de suicídio, renúncia à poesia e mudança dos nomes autorais.
Em 1938, intrigou o meio literário ao decidir interromper a carreira literária após a publicação de ''Collected Poems'', onde escreveu um prefácio defendendo a poesia como a forma máxima do conhecimento de si e do mundo. Parou de publicar, parou de polemizar. Ficou mais de 20 anos em silêncio. Retornou na década de 60, agora assinando como Laura (Riding) Jackson.
Na volta, atacou a poesia como um discurso artificial (por ser essencialmente metafórico) condenando-a como um veículo inadequado para a busca da verdade. ''Somente um problema artístico é resolvido na poesia. A verdade começa onde termina a poesia'' assinalou. ''Mindscapes'' fecha com um fórum incluindo textos assinados por figuras de renome, como Charles Bernstein (um dos criadores do ''Language Poetry'', último movimento de vanguarda da poesia norte-americana) e Jerome Rothenberg (um dos principais antologistas do mundo).
Leia a seguir, a entrevista com Rodrigo Garcia Lopes.

O livro é resultado de sua tese de doutorado. Que motivos o levaram a pesquisar a obra e a vida de Laura Riding?
Laura Riding integrava originalmente um projeto de tese ao lado das poetas Gertrude Stein, Mina Loy e Hilda Doolittle. Queria desenvolver uma pesquisa em torno das poetas transgressoras do modernismo norte-americano, que foram excluídas dos cânones oficiais. Depois percebi que seria difícil realizar tal tarefa. Resolvi, então, centrar foco em Laura Riding pela relação mais problemática que ela manteve com as instituições literárias. Além disso, ela começou a chamar minha atenção porque muitos escritores importantes a citavam e a tinham como referência. Outro fator intrigante foi o fato dela ter abandonado a poesia no auge da carreira, depois de ser considerada ''a maior revelação da poesia norte-americana'' pelo grupo de poetas-críticos da revista The Fugitive. Fiquei sete ano pesquisando sua vida e obra. Li cinco biografias e diversos volumes sobre ela. Para publicar o livro, procurei deixar o texto bem acessível retirando a linguajar acadêmico.

Você a coloca no mesmo nível de importância de T.S.Eliot, e.e.cummings, Ezra Pound e Wallace Stevens no modernismo americano. Qual é a singularidade de sua poética?
Ela vê o poeta como um demiurgo, como criador de novas realidades. Em sua primeira fase, ela via a poesia como uma forma de conhecimento superior. Sua poética se aproxima muito da filosofia explorando temas como ''o que é o ser'', ''o que é o self'', ''o que é a realidade'' e ''o que é a consciência''. Nisso, ela traz algo de existencialista, apresentando muitas similaridades com as questões levantadas na mesma época pelo filósofo Heidegger. Laura é também a poeta da lucidez total, do consciente em lugar do inconsciente, que ela condenava para a prática da poesia. Segundo ela, o verdadeiro poeta é aquele que enfrenta a luz da realidade, ou a ''sensação do que acontece'', para tomar emprestada uma expressão do neurolinguista Antonio Damasio. Não é uma poesia fácil de penetrar, exigindo mais do leitor, que para ter mais prazer precisa entender as circunstâncias em que os poemas foram criados. Laura retira as metáforas e a musicalidade deixando sua poesia seca e árida como um pintor que vai removendo as tintas até deixar a tela branca. Ela foge da poesia centrada na imagem típica do imagismo, alegando que a linguagem não dever ser uma caixa de pincéis.

Como foi traduzir uma poesia tão complexa?
Traduzir um poeta é como entrar em sua mente, revivendo seu processo criativo no momento da composição. O processo da tradução seguiu paralelamente à tese. Fui traduzindo seus poemas para entender sua cabeça, para entender melhor seu pensamento. Meu desafio foi torná-la compreensível e inteligível, buscando o tom e a dicção adequados para fazer os poemas falarem na língua portuguesa. Não foi fácil. Houve momentos em que eu não sabia o que ela estava falando. O Chris Daniels (poeta e tradutor norte-americano) foi fundamental para me ajudar a quebrar essas pedreiras.

No Brasil, salvo engano, ela é completamente desconhecida.
No exterior também. As pessoas ouviram falar, mas não conhecem sua obra. Mas esse desconhecimento deve-se em grande parte à própria autora, que renunciou à poesia permanecendo mais de 20 anos sem publicar nada. Durante esse período, ela casou-se com um poeta amador (Schuyler Jackson, que também foi um dos editores de poesia da revista Time) e foi morar numa casinha no interior sobrevivendo com um negócio de frutas cítricas. Na época, seus livros se esgotaram e não foram reeditados. Além disso, ela mesma proibiu a publicação de seus poemas em antologias, especialmente as organizadas pelas feministas argumentando que ser incluída em categorias de ''gênero'' significava diminuição de seu trabalho. Havia ainda o fato de ela ser uma pessoa intratável, problemática, demonizada pelos contemporâneos. Quando eu estava concluindo minha pesquisa sobre ela, conheci uma poeta italiana que também preparava uma antologia de poemas de Laura. Mas até agora o livro não foi publicado. Esta tradução brasileira é a primeira coletânea lançada fora dos Estados Unidos e a Inglaterra.

Serviço:
- Lançamento: ''Mindscapes Laura Riding''. Tradução: Rodrigo Garcia Lopes. Editora: Iluminuras (tel: 11/3068-9433). Páginas: 256. Preço: R$ 42,00.

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