A guerra no Iraque, o terrorismo, a sociedade do espetáculo, o consumismo, a Internet e o papel desempenhado pela mídia no mundo contemporâneo são temas triviais nas reflexões de intelectuais. O poeta Rodrigo Garcia Lopes arriscou abordar tais assuntos em seu novo livro, ''Nômada'', que chega aos leitores pela editora carioca Lamparina.
Obviamente, o viés escapa à aridez da prosa acadêmica ou da narrativa jornalística. Tudo é radicalmente mediado pela linguagem poética. ''Nômada'' sucede a ''Solarium'' (1994), ''Visibilia'' (1997), ''Polivox'' (2001) e ''Poemas Selecionados'' (2001).
O lançamento preencheu a agenda da semana do autor. Amanhã, às 19 horas, ele estará assinando exemplares na Bom Livro Megastore, no Catuaí Shopping Center, em Londrina. Anteontem, esteve em São Paulo. No sábado, às 10 horas, recebe os leitores na Livraria Curitiba Megastore (R. Luís Xavier, 78), na capital parananense. A seguir, leia entrevista com o poeta.
O livro liga a poesia ao conceito de nomadismo. Como você apresenta essa conexão aos leitores?
O nômade está sempre buscando uma nova forma de visão, uma nova forma de ver e sentir o mundo. O livro trata o conceito de nomadismo a partir de sua própria linguagem. É ela que é nômade, não o autor. É a linguagem que percorre vários territórios, rompe fronteiras, sendo capaz de incorporar contextos culturais da cultura pré-islâmica ao globalismo típico da idade mídia , misturar códigos e abolir a separação entre gêneros. Há ainda a proposta de atacar o sedentarismo do leitor, convidando-o a caminhar com a mente e as experiências sugeridas pelos textos. O leitor é sempre um co-autor de meus livros, um parceiro na criação de sentidos. O poema é sempre uma via de mão-dupla.
Há fragmentos que trazem referências diretas à guerra no Iraque. Como você trabalha os temas contemporâneos na poesia sem cair na narrativa convencional ou mesmo no panfletarismo?
A poética nômade remete também ao deserto, que é o grande palco do conflito no Oriente Médio. O livro foi produzido sob o choque de 11 de setembro. Traz um diário de guerra visto através da mídia, de como as notícias eram filtradas pela TV e pela Internet. Aliás, pela primeira vez, consegui incorporar a experiência do jornalismo em minha poesia. Durante um certo tempo, tive dificuldades em escrever poemas calcados no mundo real com receio de cair no panfletário. Tinha horror à retórica, à poesia presa às questões políticas. Mas, aos poucos, estou começando a falar dos fatos que inquietam todo mundo. Em uma das seções do livro, incorporo a crítica ao frenético fluxo de imagens da sociedade contemporânea, responsável por anestesiar as pessoas tornando-as incapazes de discernir o real da ficção, a verdade da construção. A idéia é dar um toque ao leitor, mostrando que a poesia pode servir também para o resgate das percepções num mundo cada vez mais voltado para o consumismo, o espetáculo e o superficial.
Essa é uma atitude solitária ou há outros autores brasileiros abordando temas da atualidade em seus poemas?
Durante algum tempo, vigorou um certo esteticismo que acabou afastando os autores da póetica do real. Agora, percebo que os parâmetros da poesia concreta deixaram de ser paradigmas. O rigor e a poesia estetizante deram lugar para a tematização de fatos concretos, dos acontecimentos em carne-viva. Acho que isso é bem-vindo, melhor do que ficar no cacoete do rigor que não diz nada. De minha parte, o 11 de setembro trouxe uma nova visão de mundo, tornando-se um desafio para a exploração da linguagem. Não podemos ignorá-lo. Qual o sentido de escrever poesia, hoje, depois do que houve? Acredito que um caminho válido é discutir a poesia enquanto um anti-discurso, uma possibilidade de linguagem que escape à torre de marfim. Foi a primeira vez que tentei resolver as perplexidades da sociedade contemporânea através dos poemas. O livro incorpora a crítica nos próprios textos, usando a lógica da velocidade e simultaneidade propiciada pelos novos artefatos tecnológicos e meios de comunicação. Um poema foi escrito como se eu estivesse pilotando um CD-play, brincando com o pause, os links, a linguagem da Internet, até mesmo incorporando palavras surgidas nesse novo contexto.
Que outras questões afligem, hoje, os poetas brasileiros?
A prosa e a ficção ganharam mais visibilidade, mais status do que a poesia. Esta parece um discurso incapaz de expressar as inquietações de nosso tempo, como se fosse uma atividade praticada por meia dúzia de esotéricos e filatelistas. Tenho tentado quebrar esse preconceito de poesia como coisa de iniciados, para poucos. Acho aborrecedor esse descaso para com a poesia enquanto visão de mundo, visão de linguagem. É claro que ela nunca foi arte popular, embora poetas como Walt Whitman e Maiakóviski tenham tentado levá-la às multidões. Poesia sempre foi arte marginal. E, hoje, ela é uma arma de resistência contra a banalização da linguagem, a falta de critérios, a perda de sensibilidade. Hoje, frente ao excesso de informações, a poesia é mais do que nunca uma forma de conhecimento.
Você anunciou o lançamento de 5 livros em 2004. Quais são os outros projetos?
O primeiro a sair é ''Mindscapes: Poemas de Laura Riding'', que será publicado pela editora Iluminuras. Laura foi uma poeta modernista marginalizada pelo cânone. Morreu em 1991 com 91 anos. Esta será sua primeira tradução fora dos Estados Unidos e da Inglaterra. O segundo livro é ''The Seafarer / O Navegante'', que sairá pela editora Lamparina. O texto foi escrito em anglo-saxão, língua anterior ao inglês, língua bárbara influenciada pelas culturas celta e viking. O texto tem 1.100 anos de idade. O autor é anônimo. Trata-se de um monólogo sobre a vida na terra e no mar, uma meditação sobre a condição de exilado. O único manuscrito encontra-se na Universidade de Essex. Foi traduzido por Ezra Pound que, por sua vez, teve trechos traduzidos para o português por Augusto de Campos. Eu fui ao original, e contei com a ajuda de traduções de apoio. Meu terceiro lançamento da temporada é ''Leaves of Grass / Folhas de Relva'', do Walt Whitman. O autor publicou nove edições. Eu traduzi a primeira edição, que é considerada a mais porrada, a mais visceral, a que tem mais frescor. Foi o livro que detonou a revolução modernista. É a edição menos conhecida, mas foi a espinha dorsal das outras edições. Minha tradução será fac-símile, com design e formato igual ao original. Por fim, em dezembro, lançarei a antologia ''Zona & Outros Poemas'', do poeta Guillaume Apollinaire, também pela Lamparina. Apollinaire foi o deflagrador do cubismo, o teórico das vanguardas do começo do século XX, o cara que influenciou Picasso, Braque, os nossos Oswald e Mário de Andrade e até os concretistas. Ele lutou na Primeira Guerra, feriu-se na cabeça e morreu de gripe espanhola. Traduzi os poemas que ele fez no front, suas experiências e guerra. A antologia deverá reunir cerca de 50 poemas, que vão cobrir desde os caligramas a fase pós-simbolista até chegar aos textos modernistas.

Serviço:
- Lançamento do livro ''Nômada'', de Rodrigo Garcia Lopes. Amanhã, às 19 horas, na Bom Livro Megaestore (Shopping Catuaí), em Londrina. Editora Lamparina, 166 páginas.

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