Lá se vai quase metade da primeira década do século 21, os anos 90 já habitam o campo da nostalgia, os primeiros computadores pessoais e telefones celulares já são peças de museu. Mas - como o HIV, o malufismo, Engenheiros do Hawaii e outros tormentos do século passado - o revival da década de 1980 persiste a assombrar o presente. Depois das festas trash em São Paulo, do filme sobre Cazuza, da milésima regravação de Lulu Santos para ''O Último Romântico'' e do enésimo disco póstumo da Legião Urbana, 2004 fecha com mais um produto revisionista. Trata-se de ''Quem Tem Um Sonho não Dança - Cultura Jovem Brasileira nos Anos 80'', de Guilherme Bryan, (Editora Record), que acaba de ser lançado.
Sem se aprofundar em análises sociais, o livro é um relato de fatos cheios de detalhes, alguns desnecessários. Se você quer saber quem fez vocais de apoio para o grupo Magazine na regravação de ''Fuscão Preto'', está lá. Mas não há elementos para dimensionar o impacto da novela ''Vale Tudo'' (1988-1989), de Gilberto Braga, e da música que lhe servia de tema de abertura, ''Brasil'', de Cazuza, gravada por Gal Costa. Sobretudo seu viés político, no momento em que a corrupção e a impunidade, outros males do passado ainda vivos, triunfavam.
dele.
A cobertura das manifestações artísticas é ampla. O autor não se limitou à explosão do rock, apesar de constatar que seus maiores ídolos vêm dele. Escolheu um título, extraído da letra de ''Bete Balanço'' (Frejat e Cazuza), que simboliza a junção entre as artes. ''A música foi gravada pelo Barão Vermelho para o filme de Lael Rodrigues, que foi um nome importante do cinema na época, e estrelado pela Débora Bloch, que foi aluna do Asdrúbal e, depois, participou da TV Pirata'', justifica Bryan.
O autor, que nasceu em São Paulo em 1975, não viveu conscientemente aquele período. Para compor seu relato, um museu sem grandes novidades, valeu-se de uma farta pesquisa em jornais e revistas (há 20 páginas dedicadas às fontes consultadas e outras 70 de índice, mais encarte com fotos), além de ter entrevistado quase 180 testemunhas daquela geração que, em suma, criou embriões de muita coisa que melhoraria nos anos 90.

Serviço:
- ''Quem Tem Um Sonho Não Dança - Cultura Jovem Brasileira Nos Anos 80'', de Guilherme Bryan, (Editora Record, 504 páginas, R$ 59,90.)

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