LANÇAMENTO - A arte da entrevista em livro
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005
Camila Molina<br> Agência Estado 
O que disse Hitler numa entrevista em 1931? E o pai da psicanálise um ano antes? ''As flores felizmente não têm personalidade ou complexidades. Adoro as minhas flores'', afirmou Freud - e sua frase fora de contexto pode até parecer meio banal. Eles são apenas dois dos vários nomes históricos presentes no livro ''A Arte da Entrevista'', obra organizada pelo jornalista Fábio Altman que reúne uma série de 48 entrevistas feitas entre 1823 e 2000 e caricaturas das personalidades criadas por Cássio Loredano, cartunista e colaborador do ''O Estado de S. Paulo''.
Para os leitores, há um misto de curiosidade e interesse histórico pelas clássicas entrevistas garimpadas - Al Capone, Karl Marx, Bette Davis, Mussolini, Oscar Wilde, Leila Diniz, John Lennon são mais alguns exemplos de nomes que o material guarda. Uma primeira edição do livro foi publicada em 1995 pela Scritta e continha 55 entrevistas - as estrangeiras tiradas da coletânea ''The Penguin Book of Interviews - An Anthology from 1859 to the Present Day'', do jornalista inglês Christopher Silvester, e as brasileiras pesquisadas em arquivos e bibliotecas. ''Só que algumas envelheceram'', diz Altman, que resolveu tirar algumas e colocar outras. O livro, como o jornalismo, sofreu com a agilidade do dia-a-dia, das informações. ''Tirei a do escritor Salman Rushdie, feita em 1995, quando ele dificilmente falava com a imprensa e depois isso não mais aconteceu e uma com o Caetano Veloso, de 1982, que de lá para cá falou tanto que a entrevista perdeu o valor. Ao mesmo tempo, não consegui encontrar nenhuma entrevista relevante feita depois de 2000, acho que é um problema de hoje, do jornalismo impresso que concorre com a velocidade da internet, da televisão'', conta o organizador.
A nova edição que agora chega ao público, editada pela Boitempo, foi reformulada, atualizada, e traz, especificamente, 32 entrevistas com estrangeiros e 16 de brasileiros ou feitas por jornalistas brasileiros - Fernando Morais falou com Fidel Castro; Samuel Wainer com Getúlio Vargas em 1949. E a grande novidade são as ilustrações de Loredano para cada uma das entrevistas - a edição anterior não tinha nenhum desenho. ''Considero o Loredano um gênio e o convidei para esse novo livro'', diz Altman.
Durante um ano os dois trabalharam na nova edição. ''O Fábio me mandou um exemplar de 1995 e eu me atraquei com o livro, não conseguia parar de ler'', conta Loredano. Depois ele foi recebendo as novas entrevistas e fazendo um desenho para cada. Dessa maneira, o cartunista teve como inspiração não somente as personalidades, mas o clima descrito pelos jornalistas que se encontraram com os grandes nomes e tudo isso enriqueceu o trabalho. A entrevista com o poeta Carlos Drummond de Andrade é um exemplo disso. O jornalista tinha marcado de entrevistá-lo na véspera do dia em que o Pedro Nava se matou. E aí ficou pensando se ia mesmo lá na casa do poeta, amigo de Nava. Resolveu ir e o clima era estranho. O telefone não parava de tocar, Julieta, a filha de Drummond, entrava toda hora na sala e, assim, no desenho de Loredano, lá está o poeta, sentado no sofá e um fantasma toma a cena, a figura de Nava também está no local. O cartunista também brinca dizendo que o livro poderia se chamar ''A Arte da Mentira'' porque é visível que muitos daqueles entrevistados se esquivavam às perguntas e mentiam descaradamente. ''E assim, se desnudavam ainda mais.'' Por isso, fez um Stalin de costas - e os vários exemplos não cessariam.
Serviço:
- Livro: ''A Arte da Entrevista''. de Fábio Altman e Cássio Loredano. Editora Boitempo. 480 págs. R$ 57.


