Lançado último livro de Charles Bukowski no Brasil
São Paulo, 30 (AE) - Mesmo um espírito devastado como o do escritor e manguaceiro Charles Bukowski (1920-1994) sente o aperto quando a morte está batendo na porta. Por trás da máscara de incompatível e durão, ele suou frio e o resultado acabou transpirando para seus últimos escritos, "O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio", que a L&PM Editores está lançando agora no Brasil, cinco anos após sua morte. As crônicas desse volume foram recolhidas pela última companheira de Charles, Linda Lee Bukowski, que as lançou em livro no ano passado. Até então, achava-se que o testamento de Bukowski era o material reunido em "Pulp" (editado pela L&PM em 1995).
Há um ingrediente extra que mais do que justifica a compra deste pequeno volume de 142 páginas: as ilustrações foram feitas especialmente para o livro por Robert Crumb, o grande cartunista da contracultura, há anos vivendo um auto-exílio voluntário no interior de França. O retrato carcomido e desencantado do "velho indecente" Bukowski, feito por Crumb, é algo para entrar na galeria dos personagens míticos de uma época. Mas é preciso observar que há uma diferença grande entre os dois, Crumb e Bukowski.
Crumb é um iconoclasta, mas também um estilista. Com seu traço sujo e mordaz, ele colaborou para mudar a forma e a estética de seu tempo. Tanto sabe disso que, depois do vendaval, se retirou para ver a grama do seu jardim crescer. Bukowski é uma fenômeno puramente comportamental. Nunca foi exatamente original, a não ser na quantidade de álcool que consumia - mas dizem que Oscar Wilde poderia tê-lo batido facilmente.
Charles Bukowski tornou-se moda no Brasil nos anos 80, quando a Brasiliense lançou por aqui "Cartas na Rua". Autor que se fundia etilicamente aos seus personagens, foi igualado à tradição dos escritores beatniks da década de 50, como Allen Ginsberg e Jack Kerouac. Na verdade, foi um autor intermediário. Niilista, anti-herói cínico e dono de um desprezo militante contra instituições, pessoas e coisas, Bukowski chegou a ser um autor de algum respeito quando escreveu "Crônica de um Amor Louco", que virou filme dirigido por Marco Ferreri. Mas é dono de uma obra irregular, repetitiva, demasiado ególatra.
Esse novo volume, "O Capitão Saiu para o Almoço e Os Marinheiros Tomaram Conta do Navio" é revelador. Mostra a coerência de Bukowski, até o fim. "Todo o passado não significava nada, a reputação não significava nada", ele escreve. "Tudo o que importava era a linha seguinte; e, se a próxima linha não surgisse, eu estaria morto, mesmo que, tecnicamente, estivesse vivo".
Ele está melancólico, menos agressivo, mais reflexivo. Sabe que está nas últimas e procura o sentido de ter feito o que fez. "Com as mulheres, havia esperança com cada uma, mas isso era no princípio", diz o velho fauno. "Mesmo no começo, eu saquei, parei de procurar a Mulher Ideal; eu só queria uma que não fosse um pesadelo". Irresistível - Linda Lee, a organizadora desse derradeiro volume bukowskiano, é inteligente. Ela organizou cuidadosamente o material, que termina com uma boutade típica do escritor. É irresistível, ele se vingando até o último momento com sua casmurrice engraçada. "Lembro de uma carta longa e furiosa que recebi um dia de um cara que me disse que eu não tinha o direito de dizer que não gostava de Shakespeare; muitos jovens iam acreditar em mim e não se dariam ao trabalho de ler Shakespeare, que eu não tinha o direito de tomar essa posição e assim por diante", escreveu. "Não respondi na época, mas vou responder agora: vá se f... colega; e eu não gosto de Tolstoi também", arrematou. O capitão afundou com o navio, mas, antes, esvaziou o bar. (J.M.)





