Lançado no Brasil "A Expressão das Emoções nos Homens e nos Animais", de Darwin
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quinta-feira, 09 de março de 2000
Por Ubiratan Brasil 
São Paulo, 10 (AE) - A reação é atribuída a uma certa lady Worcester que comentou, espantada, a repercussão provocada pelo livro "Da Origem das Espécies", de Charles Robert Darwin: "Descender do macaco! Esperamos que não seja verdade. Mas, se for, rezemos para que isso não se espalhe". Na época, 1859, o próprio Darwin estava temeroso com a publicação do que seria considerada a bíblia da evolução das espécies. Em vão: não apenas a teoria se espalhou como já integra nossa visão de mundo.
Preocupado com a aceitação que teriam suas teses eminentemente anticriacionistas, Darwin publicou nos anos seguintes uma série de livros fundamentais para a sustentação da teoria que lançara. Em 1871, com o livro "The Descent of Man", o naturalista inglês ousou afirmar aquilo que não fez 12 anos antes: que também o corpo humano foi moldado pela seleção natural. E, finalmente, em contraposição à idéia romântico-mística de que o homem seria a única criatura capaz de ter emoções, Darwin publica, em 1872, "A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais", que a Companhia das Letras lançou, nesta semana, a primeira edição em português, com ilustrações selecionadas pelo próprio cientista quando da publicação original.
Na obra, o naturalista indica que tudo, da raiva ao vômito, traduz-se em contorções faciais que remontam às características dos primatas dos quais descendemos. Analisando a manifestação dos sentimentos e a linguagem dos gestos, o cientista inglês prova que também as expressões das emoções, tanto humanas como as dos seres inferiores, obedecem às leis da hereditariedade. Terremoto disciplinar - "As nossas origens são muito humildes"
proclama. Darwin tinha plena consciência de que suas teorias provocariam um verdadeiro terremoto em todas as disciplinas, da literatura à filosofia, da religião à história. E que despertariam controvérsias infinitas entre os pensadores de diversas correntes de opinião. Por isso, cercou-se dos mais rigorosos cuidados. Em 1867, começou a enviar um questionário com 16 perguntas para os mais diversos colaboradores, espalhados pelo mundo.
A proposta era criteriosa: a partir das respostas, que deveriam ser escritas a partir de observações e não de lembranças, Darwin pretendia rebater a teoria de que o homem e todos os outros animais são criações independentes. Com isso, buscava definir as causas da expressão. "Nos humanos, algumas expressões, como o arrepiar dos cabelos sob a influência do terror extremo, ou mostrar os dentes quando furioso, dificilmente podem ser compreendidas sem a crença de que o homem existiu um dia numa forma mais inferior e animalesca", afirma, na introdução do livro.
Darwin buscava afirmar ainda que também os animais têm emoções (medo, raiva, tristeza), manifestadas por meio das expressões. Crianças e doentes mentais - Assim, aconselhava seus colaboradores a observar principalmente crianças e doentes com problemas mentais, seres em que a espontaneidade dos movimentos faciais era extraordinária. Darwin ansiava também pelas respostas vindas da áfrica e Austrália, países em que os nativos teriam pouco ou nenhum contato com o europeu civilizado - o cientista sustentava que muitas das nossas expressões são inatas e não aprendidas, pois se repetem em homens e mulheres de diferentes culturas.
Por fim, valeu-se de ilustrações fieis, feitas por artistas da época, das mais variadas expressões de diversos animais, especialmente cachorros. É a partir desse material que Darwin constrói o mais importante passo em sua teoria evolutiva ao inaugurar o estudo dos aspectos biológicos da forma de viver do ser humano. Como afirma Konrad Lorenz no prefácio do livro, padrões comportamentais são características tão confiáveis e conservadas nas espécies quanto as formas dos ossos, dos dentes ou de qualquer outra estrutura corporal.
Assim, ele examina e explica todas as expressões (humanas e animais) do ponto de vista da sua funcionalidade no processo de adaptação do indivíduo ao meio-ambiente. São o primeiro meio de comunicação entre a mãe e o bebê, por exemplo: sorrindo, ela encoraja o filho quando está no bom caminho; senão
ela franze o semblante em sinal de desaprovação. Da mesma forma
entre os animais, os gestos são significativos para determinados momentos: para afastar seus predadores, a cobra balança seu guizo enquanto a galinha abre suas asas.
Com suas minuciosas observações, Charles Darwin inaugura a tentativa de compreender os aspectos biológicos do comportamento dos seres vivos, atividade que atualmente é o ponto de partida da etologia, ciência do comportamento que hoje é ramo da neurociência. O fato é também lembrado no prefácio assinado por Konrad Lorenz, cientista austríaco que ganhou o prêmio Nobel de Medicina em 1973 e morreu em 1989. Gerador de idéias - Considerado atualmente nos meios acadêmicos como um gerador de idéias menos questionável que Marx e Freud, Charles Darwin continua despertando enorme interesse, como comprova a reedição deste mesmo "A Expressão das Emoções nos Estados Unidos", em edição organizada em 1998 pelo psicólogo Paul Ekman, da Universidade da Califórnia. Além de escrever extensos prefácio e posfácio, Ekman estabelece, por meio de diversas notas ao longo do texto, o estágio atual das idéias darwinianas.
De fato, não há contestações sérias a Darwin. Mesmo as teorias mais contraditórias em biologia, como a do "equilíbrio pontuado" de Stephen Jay Gould e Niles Eldredge, procuram apenas aperfeiçoar o modo como a seleção natural age. Apesar de contestado, Darwin e suas idéias continuam influenciando decisivamente a ciência. Serviço - "A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais", de Charles Darwin. Introdução de Konrad Lorenz. Tradução de Leon de Souza Lobo Garcia. 376 páginas, R$ 26,00, Companhia das Letras


