Steven Spielberg tinha 28 anos quando dirigiu ‘‘Tubarão’’ (atualmente, está com 49). Foi seu primeiro grande sucesso de público. Em pouco mais de dois meses, o filme abocanhou US$ 100 milhões nas bilheterias - uma fábula de dinheiro em 1975. Passou a ser a maior bilheteria de todos os tempos. Logo vieram sucessos como ‘‘Contatos Imediatos do Terceiro Grau’’, ‘‘ET’’ e ‘‘Os Caçadores da Arca Perdida’’, que desbancaram Tubarão do topo da lista. Criou-se o mito do jovem Midas, o diretor capaz de transformar em dinheiro tudo o que fizesse - e isso, independentemente de fracassos como 1941 (o único de Spielberg). Os sucessos incluem ‘‘Parque dos Dinossauros’’ e ‘‘A Lista de Schindler’’, com o qual o diretor finalmente ganhou o Oscar da Academia de Hollywood.
‘‘Tubarão’’ já está nas locadoras. Está saindo num pacote junto com ‘‘Psicose’’, também em lançamento da CIC Vídeo. Até que enfim os cinéfilos vão comparar se é mesmo verdade que o ataque do tubarão à jaula que desce para o fundo do mar reproduz, quase que plano por plano, o célebre ataque a Janet Leigh na cena da ducha no clássico de Alfred Hitchcock.
Medos atávicos Quando ‘‘Tubarão’’ estreou, ninguém sabia direito o que esperar da adaptação do best seller de Peter Benchley. Afinal, Spielberg era considerado um diretor talentoso, mas ainda não havia dado a medida desse talento. Seus primeiros filmes foram feitos para TV e, pelo menos um deles, ‘‘Encurralado’’, resultou tão bom que teve lançamento também nos cinemas. O primeiro filme para cinema foi premiado em Cannes, mas, curiosamente, o êxito de bilheteria de ‘‘Louca Escapada’’ foi modesto. Foi então que ocorreu ‘‘Tubarão’’.
Spielberg mexeu com medos atávicos dos espectadores: do fundo do mar, como fonte de mistério e perigo, do tubarão, o grande predador dos mares. O primeiro ataque do tubarão continua impressionante, por mais que a cena tenha sido repetida depois, nas inúmeras imitações do filme que rolaram nas telas. A câmera subjetiva adota o ponto de vista do monstro dos mares quando ele avança em direção à perna da sua vítima. A partir daí, é pouco provável que alguém consiga entrar relaxado no mar sem prestar atenção ao redor, em busca de uma barbatana ameaçadora.
Moby Dick A trama é fácil de ser resumida: Um tubarão começa a fazer vítimas na praia de Amity (que, de amigável, só tem o nome). O xerife Roy Scheider tenta alertar os banhistas, mas tromba com a intransigência do prefeito, que se lixa para a segurança e só pensa no dinheiro que os turistas deixam em sua praia. Forma-se a expedição que vai combater o grande tubarão. É integrada pelo xerife e também por Robert Shaw, como um veterano homem do mar, e por Richard Dreyfuss, como um cientista.
Há um quê de Moby Dick, a baleia assassina de Herman Melville, que John Huston transformou em filme, nessa história da natureza que confronta o homem com seus limites - e suas obsessões. O tubarão era uma metáfora perfeita naqueles anos em que a América enfrentava uma descrença profunda em suas instituições, após o escândalo de Watergate. Há mesmo uma subtrama à maneira de Watergate no filme, mas o importante é que Tubarão, na época, não deixava de se integrar na corrente dos ‘‘disaster movies’’. Como bom filme-catástrofe, termina numa afirmação da força e da necessidade do homem da lei: Roy Scheider termina resolvendo a parada. Como espetáculo eletrizante de ação e suspense, chegando hitchcockianamente - à maneira de ‘‘Psicose’’ - ao terror, o filme tem momentos de rara força. Surgiu daí o mito de Spielberg. Por seus espetáculos, nos anos seguintes, os críticos haveriam de compará-lo a Peter Pan, o menino que nunca cresceu. Por mais discutível que seja essa noção de uma síndrome de Peter Pan, Spielberg ocupa um capítulo decisivo do cinema americano atual. Hollywood nunca mais foi a mesma depois que surgiram ele e seu amigo George Lucas. E tudo começou em Amity, com um tubarão que remete a medos profundos do espectador.

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