Lançada coleção de vídeos de Arnaldo Jabor
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 18 (AE) - Ele já foi chamado de cineasta da palavra. Desde que trocou a câmera pelo laptop, Arnaldo Jabor tornou-se uma rara unanimidade. Seria (ou é) uma grande estrela do jornalismo brasileiro. O cineasta desiludido que aceitou trocar de médium virou polemista profissional, ocupando o vazio deixado pela ausência de Gláuber Rocha (que também possuía a veia jornalística). Nas crônicas de Jabor, há do bom e do pior, artigos lúcidos e outros nem tanto, em que, no afã de dizer a última palavra sobre tudo, ele cai numa originalidade no mínimo forçada. Seus filmes também são irregulares. Ele dirigiu a melhor adaptação de Nélson Rodrigues (Toda Nudez Será Castigada). Não satisfeito, fez em seguida a pior (O Casamento). Jabor está sendo homenageado pela Europa com o lançamento de uma coleção de vídeos que leva seu nome.
Já saíram "Toda Nudez", "O Casamento" e "Eu Sei Que Vou Te Amar", que representa, mais do que qualquer outro filme do diretor, o mal psicanalítico de que sofre o seu cinema. Estão chegando às lojas especializadas mais duas fitas - uma contém "Eu Te Amo" e a outra, "Opinião Pública" e "O Circo". O próprio Jabor declarou um dia que o Cinema Novo é filho da imprensa estudantil dos anos 60. Os luminares do movimento faziam filmes como se faz jornalismo. Os filmes eram documentários-verdade.
"Opinião Pública", seu primeiro filme, era uma pesquisa crítica sobre a classe média brasileira. Passsaram-se mais de 30 anos, mas o retrato que Jabor traça desse estrato social ainda permanece válido. Jabor usa a classe média para colocar em discussão o conceito de opinião pública - nos primórdios do Brasil do regime militar (o filme é de 1967). Na verdade, o que ele faz é uma vasta enquete sobre como se produzem as idéias feitas. É o que ainda faz a força do filme.
Trata-se de um média-metragem que vem acompanhado pelo curta "O Circo". Jabor coloca-se nos antípodas de Cecil B. De Mille. Focaliza o circo como o menor espetáculo da Terra, não deixando de ver nos artistas do picadeiro personagens um tanto marginalizados que completam a visão da classe média de "Opinião Pública". O Brasil inspira esses dois filmes.
Jabor é mesmo um cineasta da palavra. Basta lembrar "Toda Nudez", com seus personagens que berram e não conseguem encontrar a verdade em suas palavras. "Eu Te Amo" integra a trilogia iniciada com "Tudo Bem". Na verdade, foi o segundo desses três filmes que se completaram com "Eu Sei Que Vou Te Amar". Foi o maior sucesso de público do diretor - teve mais de 4 milhões de espectadores nas salas. Para isso contribuíram, e muito, as participações de Sonia Braga e Vera Fischer.
Sonia, na época (o começo dos anos 80), estava no auge da forma e era a grande estrela do cinema nacional. É esplendorosa no que não deixa de ser a versão high tech de "John e Mary", filme que Peter Yates havia realizado pouco antes com Dustin Hoffman e Mia Farrow no papel da dupla que parte da relação de uma noite para uma ligação mais duradoura. Mas Jabor preferiu forçar a semelhança com "Último Tango em Paris", de Bernardo Bertolucci, e "Império dos Sentidos", de Nagisa Oshima. Teorizou sobre amor e sexo, vida e morte, relações de poder entre amantes. Puro exagero.
Hoje é mais fácil perceber que o filme discute todos os modismos de uma época que debate consigo mesma a liquidação de seus pereconceitos e a aquisição de novos padrões de comportamento físico e emocional. Nesse sentido, "Eu Te Amo" é bem anterior aos duros tempos da aids. Os personagens de Paulo e Maria, interpretados por Sonia e Paulo César Pereio, são levados a superar a angústia produzida por duas relações anteriores traumáticas e a se atirar na intensa e deliciosa aventura da entrega mútua.
Não por acaso, eles terminam celebrando a vitória do amor numa paródia de musical hollywoodiana, mas antes disso gritam e falam muito, como bons personagens de Jabor, até mesmo recorrendo aos mais modernos meios de comunicação (como o vídeo doméstico, que há quase 20 anos ainda tinha um sabor de novidade). Jabor fala sobre liberação sexual não apenas por meio do par principal. Há outros casais em cena que encarnam diferentes perspectivas, desde a união aberta até o casamento mais convencional. Há até um travesti, prisioneiro da sua trágica dualidade.
A cena com Vera Abelha é uma das mais intensas do filme. É, de longe, a melhor cena de Pereio, que não embarca na viagem do filme com a mesma paixão de Sonia. Ela é o melhor de "Eu Te Amo". A bela mulher prova que tem a sensibilidade de uma verdadeira atriz. Serviço - Coleção Arnaldo Jabor. Europa Vídeo. Duas fitas: Eu Te Amo e outra com Opinião Pública e O Circo. Venda direta para o consumidor. Preço médio: R$ 44,00. Informações: 7295-7020


