Assim como os pulmões se expandem para receber o sopro da vida, o fole do acordeon de Lucy Foganholi, 58 anos, se enche de ar em sua última homenagem ao pai acordeonista ao tocar uma de suas músicas favoritas - a ''Le Lac De Come'' (Mdme. G. Galos). Há exatamente um ano, aos 82 anos, morria o músico José Foganholi, que nos últimos 30 anos se dedicou a alegrar os carnavais londrinenses com sua música de qualidade, dominando eximiamente o acordeon e o pistão. Sua missa de sétimo dia, no ano passado, coincidiu com o domingo de carnaval - uma grata coincidência para quem era apaixonado pela música e pelos bailes.
Por volta dos 50 anos, José Foganholi mudou-se de Astorga para Londrina. Em Astorga, a Família Foganholi ganhou fama ao se apresentar em programas de calouros no teatro da cidade. Seo José, acompanhado da sua sanfona - apelidada de Zequinha -, se apresentava junto com os cinco filhos pequenos - Devanil, Lucy, Leovir, José e Maria Dinéia. Era a ''Família Acordeonista'' e a esposa Helena, hoje com 76 anos, era responsável pela apresentação do show. Antes de Astorga, a família também morou em Florestópolis, Paranavaí e chegou a ter uma escola de música em Nova Esperança.
Já em Londrina, o músico experiente tocou nas principais casas noturnas da cidade, além de fazer questão de atuar como músico free-lancer nos bailes de carnaval até quase o final da vida. ''Mas desde o início da sua carreira costumava tocar nas 'casas de tolerância', e dizia que lá se ganhava muito bem e o público era exigente por música de qualidade'', relembra Jair Francisco da Silva, 60 anos, marido da Lucy e entusiasta pela história musical e de vida do sogro. ''Até com Nelson Gonçalves ele tocou numa dessas casas de Londrina'', acrescenta Jair.
Nascido em Olímpia, no estado de São Paulo, José Foganholi foi criado no vilarejo Água Fria, próximo a João Ramalho. Por volta dos dez anos começou a se interessar pelo acordeon, instrumento que seu pai tocava. Não demorou muito para que dividisse o trabalho na lavoura com as aulas de música que começou a frequentar duas vezes por semana em Rancharia. Para chegar até lá era preciso, além do talento musical, perseverança. José tinha que andar a cavalo alguns quilômetros até a estação de trem de Moema, onde pegava o trem até Rancharia. Na volta, o trem não parava em Moema e era necessário literalmente pular da locomotiva - quando o maquinista diminuía a velocidade para reduzir o risco de acidentes envolvendo os passageiros. Pelo que consta, José só se machucou uma vez. Não foi nada grave, mas o acordeon sempre foi preservado intacto.
Elogiado desde início pela sua performance musical, tocava nos bailes e casamentos da redondeza e chegou a se formar pela conceituada Academia Brasileira de Artes Mário Mascarenhas, em Maringá, na década de 60. ''Além do repertório popular, ele tinha uma grande capacidade de tocar peças clássicas consideradas difíceis por terem muitas notas ligeiras, como 'Moto Perpétuo' (de Paganini). Era considerado um virtuose e é uma pena que não tenha tido a oportunidade de estudar e trabalhar em grandes centros'', lamenta Jair, que se emociona ao falar do sogro. Entre os destaques do seu repertório musical, estão as composições ''Carnaval de Veneza'' (Paganini) e ''Vôo do Besouro (Rimsky Korsakov) e era grande admirador de Sivuca, Ucho Gaeta, Oswaldinho do Acordeon e Edu da Gaita.
Diagnosticado com cirrose hepática por volta dos 75 anos, José Foganholi acabou se dedicando mais a tocar pistão, já que as mãos inchadas não respondiam com tanta agilidade ao acordeon. Saudosista, sentia falta do tempo em que a boa música predominava nos espaços públicos - até mesmo nos prostíbulos - e se incomodava com o que considerava a queda da qualidade musical no Brasil. Figura carismática e bem humorada, José Foganholi também consertava instumentos musicais. Sua velha sanfona - que foi restaurada e permanece sob os cuidados do filho Devanil - nesta terça de carnaval estará silenciosa, mas por muito tempo ainda será sinônimo de vida e alegria.

mockup