LAÍS BODANZKY
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de julho de 2001
Francelino França De Londrina 
A cineasta Laís Bodanzky conhece os caminhos sinuosos da cultura brasileira. Ela percorre o Brasil divulgando seu primeiro longa-metragem Bicho de Sete Cabeças, filme que retrata a odisséia de um adolescente ao inferno manicomial, após o pai encontrar um baseado no bolso de seu casaco. Apesar de ser o primeiro longa, a genética cinematográfica se faz presente no trabalho da jovem diretora, filha do cineasta Jorge Bodanzky.
O burburinho dos sets sempre foram familiares. O filme de Jorge Bodanzky Iracema (1974), censurado para exibição, era acompanhado pela pequena Laís, com exibições para um público seleto em casa. Ela chegou frequentar um set de filmagem quando criança no sul do Brasil. Quando Laís Bodanzky entrou para a escola de cinema (FAAP) já havia percorrido algumas etapas.
Com seu primeiro curta-metragem Cartão Vermelho (1994) recebeu um prêmio- estímulo, além de receber os prêmios de melhor direção no FestRio e da crítica no Festival de Brasília. Cartão Vermelho tem carreira longa pelo mundo e foi até vendido para o Canal Plus, da França.
Ao fazer o lançamento do filme Bicho de Sete Cabeças, em Londrina, Laís Bodanzky concedeu uma entrevista à Folha2, ocasião em que falou sobre sua estréia como cineasta, o Brasil que conheceu durante a realização do projeto de exibição itinerante do cinema brasileiro Cine Mambembe em que apresenta curtas e longas pelas cidades do interior do Brasil para públicos que desconheciam a magia do cinema. Agora, ela não deixa de camuflar a ansiedade diante da reação da platéia com seu longa. O Bicho... está em cartaz em 11 cidades no Brasil, com mais de 40 cópias, e até o momento conquistou um público de 200 mil espectadores. Em São Paulo, o filme está em cartaz há cinco semanas. A seguir, trechos da entrevista com Laís Bodanzky.
Seu envolvimento com cinema começou quando criança, visitando os sets de filmagens de seu pai e assistindo às exibições dos seus filmes. O que você aprendeu nesse período?
Aprendi que fazer cinema não tinha esse glamour que as pessoas achavam. Eu conhecia o drama de levantar a produção, que exige muito do emocional e tinha noção que é preciso trabalhar pesado. Depois, quando fiz faculdade de cinema, aprendi que fazer cinema é trabalho de equipe.
Que Brasil que você conheceu quando percorreu o País com o projeto Cine Mambembe, que remete ao filme Cinema Paradiso, de Guiseppe Tornatore, com exibições cinematográficas em praça pública?
Uma das escolas de cinema que eu tive foi o Cine Mambembe, assistindo à reação do público. Esse projeto nasceu da angústia como realizadora, que não conseguia exibir minha produção. Ao mesmo tempo, percebia a angústia do público por não ter o que assistir, nem como, até por não ter dinheiro. Quando acabou a viagem, recebemos um Brasil de volta que eu não sabia. Encontramos pessoas muito articuladas, orgulhosas da região onde vivem, com brilho nos olhos. Todos sabem que São Paulo e Rio de Janeiro não têm qualidade de vida. Hoje, o projeto conta com projetor de 35 mm e toda uma estrutura. Mas é preciso contar com o apoio das prefeituras para o projeto acontecer.
Quais os filmes que são exibidos no Cine Mambembe?
A Velha a Fiar, de Humberto Mauro; Cartão Vermelho (Laís Bodanzky), Geraldo Voador, de Bruno Viana; Viver a Vida, de Tata Amaral, e muitos outros.
Como surgiu a idéia de realizar o documentário Cine Mambembe, o Cinema Descobre o Brasil cuja direção foi feita juntamente com Luis Bolognesi? (O documentário recebeu prêmios no Festival É Tudo Verdade, melhor documentário da TV Cultura, melhor documentário do Grande Prêmio Cinema Brasil, prêmio de melhor documentarista no Festival de Gramado e melhor filme de vanguarda Festival de Cinema de Nova York)
Nós registrávamos com câmera digital nossas visitas às cidades. Passamos por lugares curiosos, que não tinham luz, antigos quilombos, assentamentos do MST. Ficamos surpresos com a qualidade das entrevistas.
Nesse documentário vocês deram visibilidade aos excluídos e, de certa forma, subverteram a ausência de política cultural nessas cidades. Quais os caminhos que você poderia apontar para reverter esse quadro desolador onde 92% das cidades brasileiras não têm salas de cinema, segundo recente pesquisa realizada pelo IBGE?
A solução imediata são os cinemas itinerantes. Mas é importante ter o hábito, porque cultura também é uma questão de hábito, para poder comparar e evoluir conhecimento. A distribuição da cultura no Brasil se dá apenas para o público A e B. A miséria e carência não estão nas cidades do interior, lá existe dignidade. A carência se faz presente nas periferias das grandes cidades. Mas não é porquê a cidade possui cinema é que ela é privilegiada. É preciso saber onde está o cinema e quem frequenta.
A que você atribui o grande número de mulheres por trás de boas produções na atual safra da cinematográfica brasileira?
Realmente existe um leque muito grande da produção feminina no cinema. O que eu noto é que elas estão presentes não somente na função de direção, mas em outras funções, como produtoras executivas e trabalhando na montagem e som. Nas escolas de cinema há muitas mulheres também. Isso acaba refletindo na função de direção.
As atuais leis de incentivo (Lei Rouanet/Lei Audiovisual) precisam ser melhoradas. Em que elas ajudaram em seu filme?
No filme Bicho de Sete Cabeças temos como principal patrocinador a BR Distribuidora. Mas só conseguimos captar 100% agora, depois de o filme ser lançado. A Fábrica Cinema, um importante centro de produção e distribuição de filmes da Itália, bancou 50%. Só as leis de incentivo não bastam. Precisamos criar novos guichês para poder viabilizar a produção. Um cinema mais autoral tem dificuldades para captar. Se não conversarmos diretamente com o marketing das empresas fica mais difícil. Os produtores de cinema estão se organizando para viabilizar uma política cinematográfica. Uma das soluções é um prêmio para filmes de baixo orçamento. Acho que precisaríamos de ter um fundo pensando em quem faz seu primeiro filme. Eu queria ter feito meu primeiro longa bem antes de ter 31 anos.
Como foi essa parceria com a produtora da Itália?
Toda a finalização foi feita no laboratório da Cineccitá, que conferiu qualidade ao resultado. Da pré-produção à primeira cópia demoraram 10 meses. Isso foi muito rápido.
Realizar filmes emprega mão-de-obra numerosa e movimenta a economia nos locais em que são produzidos. Por que isso ainda não foi percebido pelos responsáveis por política cultural, incluindo a cultura como produtora de riqueza?
Existem cidades, como Tiradentes (MG) em que isso acontece (onde foi rodado Amor & Cia, de Helvécio Ratton). É preciso haver essa percepção, mas é importante montar uma política permanente.
Seu longa-metragem deflagrou uma discussão sobre o sistema manicomial brasileiro. Você conheceu a realidade dos adolescentes que vivem problemas com as drogas?
Foi um grande desafio falar com delicadeza e objetividade sobre esse assunto e ainda por cima com uma linguagem que atingisse o grande público. Procurei não carregar muito nas tintas. O filme foi inspirado no livro Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano Bueno, mas não é exatamente o livro. Fizemos várias reuniões com adolescentes. Na cena em que o Neto (Rodrigo Santoro) foge do hospital, foi sugestão de um adolescente que disse: Se eu fosse o Neto, naquela hora, tentaria fugir. A presença no filme de Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kiss, do fotógrafo Hugo Kovensky e das produtoras se deu em função do roteiro amadurecido. Recebo muitos e-mail de pais, adolescentes e profissionais da área relatando casos sobre o assunto. Existe uma realidade invisível sobre o assunto.
Como está a trajetória do seu longa no exterio? Ele está inscrito em festivais
A primeira sessão no exterior acontece no dia 3 de agosto, em Locarno (Suíça), numa mostra competitiva, e vou estar lá. Mas quem decide a carreira lá fora é o produtor italiano, que tem muita experiência.


