Em matéria de violência, a história do cangaço pode ser comparada a um filme de horror. Facões decepando cabeças pernas e braços. Punhais arrancando olhos, corações, orelhas, línguas e bagos. Tiros estourando cabeças e peitos. E para completar, torturas de todos os tipos e estupros de todas as formas. Tudo dentro de um mundo profundamente masculino, patriarcal e machista.

Maria Bonita foi a única mulher  que decidiu viver espontaneamente com um cangaceiro, no caso, Lampião
Maria Bonita foi a única mulher que decidiu viver espontaneamente com um cangaceiro, no caso, Lampião | Foto: Benjamin Abrahão Boto (1935) / Wikipédia.org/ domínio público



"Maria Bonita - Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço", livro da jornalista Adriana Negreiros que acaba de ser lançado pela editora Objetiva, releva a figura da mulher dentro nesse mundo sanguinário. E a imagem que se revela pode assustar até mesmo corações pouco pacíficos.
A obra reconstrói a biografia de Maria Gomes de Oliveira (1911 - 1938), que após a morte passou a ser conhecida como Maria Bonita, a Rainha do Cangaço. Companheira de Virgulino Ferreira da Silva (1898 - 1938), conhecido como Lampião, o Rei do Cangaço, foi a primeira mulher a participar do bando de cangaceiros até então constituídos exclusivamente por homens.

Maria de Déa (Maria filha de Déa), como sempre foi chamada, foi uma das raras mulheres que escolheu se casar com um cangaceiro por livre e espontânea vontade. A grande maioria das mulheres eram "confiscadas" com violência, com 12 ou 13 anos de idade, e obrigadas viverem como "propriedade" dos bandoleiros.
Até 1930, nenhuma mulher vivia com o bando. Eram deixadas em lugares visitados regularmente. Após Lampião levar Maria para viver com o grupo em suas ações, outras mulheres também passaram a ser aceitas no bando. Mulheres como Dadá, Sila, Inacinha, Otília, e muitas outras que foram obrigadas a abandonarem suas famílias e se tornarem cangaceiras.

Se por um lado as mulheres viviam com pavor de serem lavadas por cangaceiros, igualmente viviam aterrorizadas em serem abordadas pela polícia que perseguia os cangaceiros. O destino era o mesmo, igual ou maior: violência, tortura, estupro, morte e outras coisas mais.
A autora também apresenta a história de cada uma dessas mulheres. E chega à conclusão de que os relatos das cangaceiras sobreviventes sempre foram desacreditados em relação à extrema brutalidade da qual foram vítimas: "Colocar em suspensão a versão das cangaceiras faz parte da mesma lógica que insiste em desqualificar os relatos de mulheres quando violentadas. Uma distorção atávica, que transforma vítimas em culpadas e procura encontrar no comportamento feminino as alegadas razões para justificar a opressão."

Algumas abordagens contemporâneas apresentam a ideia de que no cotidiano do cangaço havia igualdade entre homens e mulheres. Em "Maria Bonita", Adriana Negreiros derruba essa tese a partir de relatos e depoimentos: "Como regra, depois da morte de seus maridos, as mulheres ficavam à disposição dos outros cabras, como um patrimônio sem herdeiro certo. Um cangaceiro solteiro poderia, se quisesse, pegar a moça para ele. Se houvesse mais de um interessado, que resolvessem a disputa entre si, amigavelmente. Caso não despertasse interesse de ninguém, o mais recomendável era que fosse morta, pois, caso voltasse para casa, poderia entregar os segredos do grupo para a polícia. A presença de mulheres solteiras era rigorosamente proibida no bando. Só ficava ali quem tinha dono."

A história de amor entre Lampião e Maria Bonita deu origem a uma série de histórias lendárias e fantasiosas que possuem pouca conexão com a realidade. A falta de informações sobre a figura real de Maria de Déa e de outras dezenas e jovens cangaceiras se confunde com várias versões de um mesmo fato. O único fato confiável demonstra que Maria rompeu com o padrão de mulher decente, recatada e do lar característico da década de 1930. Abandonou um casamento infeliz para se unir a outro homem, um bandoleiro.
Quando Lampião e seu bando foram derrotados em 1938, em Angicos, Maria foi degolada e sua cabeça exposta em praça pública de várias cidades. Seu corpo permaneceu abandonado no local onde foi morta e, segundo os relatos, "com as pernas abertas e um pedaço de madeira enfiado na vagina".

Imagem ilustrativa da imagem Lágrimas silenciosas de mulheres invisíveis
| Foto: Reprodução



Serviço:
"Maria Bonita - Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço"
Autora - Adriana Negreiros
Editora - Objetiva
Páginas - 296
Quanto - R$ 49,90

Fragmento

Conforme contaria depois, o soldado Godoy ignorou os suplícios da cangaceira para que a deixasse viver. Assim como os jurados de morte de Lampião tentavam apelar para os bons sentimentos de sua mulher, ela teria contado a Godoy ter uma filha para criar. Ele não se sensibilizou. Com um só golpe, arrancou-lhe a cabeça, ainda com vida. Conforme seu relato, para ajudar o sangue a escorrer - estava surpreso com a quantidade que jorrava pela base -, bateu com as mãos no topo do crânio. Depois, para estancar a sangria, enfiou os dedos "dentro do tutano". Admirou-se com sua coloração, "de um branco danado".
Depois de se livrar da trabalhosa tarefa, ainda de acordo com a história contada pelo próprio Godoy, usou a boca do fuzil para levantar a parte de baixo do vestido de Maria. Chamou a atenção dos outros soldados para a cor da calcinha que ela usava naquela manhã. Era encarnada, como descreveria.

(Fragmento de "Maria Bonita", de Adriana Negreiros)

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