Lágrimas seletivas
Alguém ainda acredita que Fernando Henrique Cardoso venha a ser um bom presidente? Tem de se esperar a segunda encarnação, digo, o segundo mandato? Fernando se dobra aos pelegos de estatais, coronéis do Nordeste, e foi mais esfaqueado por banqueiros inescrupulosos _ e impunes _ do que Júlio César no Senado romano. Havia dois intelectos no seu Ministério, Jatene (bem ou mal) e Serra. Agora ninguém tem a cabeça acima do meio-fio.
Vi-o debulhado em lágrimas com um pai-de-santo de Mandela na África do Sul, mas Fernando não chorou por Caruaru ou por Belém.
Boletim Brasil
Covas enterrou o governo Fernando Henrique.
Malan carregava a pasta de João Paulo dos Reis Veloso. Hoje está de mãos abanando.
De moderno só temos o contrabando.
Em vez do Virundu deveriam adotar como hino nacional Boneca de piche, és tu que me acaba, da cor do azeviche, da jabuticaba.
Lucro e prejuízo
A Vale dá lucro, dizem seus profiteurs. José Silveira, grande copidesque, me mandou um documento enorme defendendo a empresa onde trabalha. Deve ter tido preguiça de copidescá-lo. Em US$ 3 bilhões de investimento anual a Vale retorna 0,8%. Aqui seria corrida às gargalhadas do mercado.
Homenagem a Maneco
Maneco Muller, pseudônimo Jacintho de Tormes, o modernizador da coluna social brasileira. Gostava de futebol. Perguntava no dia seguinte aos amigos que encontrara no bar quem estava lá. É um gentleman. Às vezes, o ridículo era demais para Mané. Quando lhe violava o tédio, escrevia: Quá-quá-quá-quá-quá-quá. Lembrei de Maneco ao ver: Rio, 2004. Quá-quá-quá-quá. Para Maneco, o Rio de hoje deve parecer Atlântis, a cidade perdida.
Garbo
Olhando vários filmes de Garbo. Em Ninotchka, 1939, ela não usa sutiã, incomum na época. Os seios de pico, miúdos, sem silicone. Em Ana Karenina, mudo, projeta um sensualismo desesperado, à beira do ridículo, principalmente quando Vronsky cai do cavalo numa corrida. Olha o marido entre o atemorizado e o incontrolável. Em Ninotchka, há momentos em que parece um cadáver, quando ouve o interlocutor, e, de repente, aquele facho de luz que ilumina toda uma situação e a transforma a seu bel-prazer. Com Robert Taylor, em Camille, faz sua magreza habitual mais frágil ainda, é boneca fofa mas extraordinariamente dócil aos comandos de Taylor, na última cena. Olha para ele descrente, aos poucos vai se inflamando do próprio romantismo, há um pré-rigor mortis nas suas feições, este tipo de beleza e morte só se vê geralmente em ópera, grande ópera. Barry Paris, seu biógrafo, diz que, depois de filmar a cena da morte, Garbo foi ver os rushes, as cenas. O incomum nisso é que nunca via. Mas deve ter sentido que tinha ultrapassado certas convenções profissionais e quis olhar o resultado. Auden, o poeta, quando viu Camille, não parava de chorar, explicando a um amigo: Não se pode ser racional o tempo todo. Kenneth Tynan escreveu que víamos nela, quando sóbrios, o que só enxergávamos em outras mulheres quando bêbados. Tally-ho!





