LACUNA - Luto na literatura
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sábado, 02 de agosto de 2014
Marcos Roman<br> Reportagem Local 
Contabilizando quatro perdas recentes e irreparáveis para a literatura nacional, o Brasil passou em clima de luto o Dia do Escritor (celebrado em 25 de julho). As mortes de Ariano Suassuna, Ivan Junqueira, João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves, todas ocorridas no mês passado, num curto espaço de 20 dias, abalaram o País, deixando uma grande lacuna para os admiradores e estudiosos de suas obras.
Poeta, crítico literário e ensaísta, Ivan Junqueira foi o primeiro a partir. Aos 79 anos, o escritor carioca morreu no dia 3 de julho, por falência múltipla dos órgãos. A força de sua obra rompeu fronteiras, fazendo com que seus livros ganhassem traduções em inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, dinamarquês, chinês e até russo.
"Talvez por ser tão humanista e falar de questões intimistas como a morte, Ivan Junqueira não se tornou um escritor popular. Provavelmente a partir de agora seus livros se tornarão objetos de estudo, pesquisas, teses e dissertações que serão feitas futuramente por acadêmicos", destaca Rosemari Calsavara, professora de estudos literários do Mestrado em Metodologias para Ensino de Linguagens e suas Tecnologias, da Unopar.
A segunda perda aconteceu 15 dias depois, com a morte de João Ubaldo Ribeiro. Autor consagrado e sucesso de público e crítica, Ubaldo morreu aos 73 anos, vítima de embolia pulmonar. Com uma extensa obra que além de romances inclui crônicas cotidianas e políticas, o baiano se tornou um dos mais populares e premiados escritores brasileiros dentro e fora do País. Ao longo da carreira foi laureado com um Prêmio Camões e de dois prêmios Jabuti, por "Sargento Getúlio" e "Viva o Povo Brasileiro".
"João Ubaldo é o meu escritor preferido. Acho que o que chama a atenção dos leitores em seus livros são os personagens muito autênticos, que retratam com muita eficácia a grande mistura que é o povo brasileiro e o seu cotidiano. Ele tinha o dom de dar luz aos anônimos, ao povo e fazia isso com muito humor. Ubaldo era a cara do Brasil", salienta a jornalista aposentada, Marisa Villela.
No dia seguinte à morte de João Ubaldo, foi a vez de Rubem Alves se despedir de seus leitores. Conhecido principalmente como cronista e autor de livros infantis, Alves morreu aos 80 anos deixando um grande legado através de sua obra que aborda temas como pedagogia, teologia e psicanálise.
"O Rubem Alves se debruçou com carinho sobre questões ligadas ao ensino. Professores de todas as instâncias deveriam conhecer a obra dele, que promove o conhecimento e desperta reflexões de forma bastante assertiva com uma pedagogia muito humana", ressalta Rosemari Calsavara. "Fiz muito uso de seus textos quando trabalhava questões sociais junto ao público infantojuvenil graças à sua linguagem de fácil compreensão", relata a assistente social Joyde Lone.
A morte mais recente foi de Ariano Suassuna, que faleceu no último dia 23, aos 87 anos, após sofrer uma parada cardíaca provocada pela hipertensão intracraniana. "Ao mostrar as questões populares do nordeste e desenvolver uma narrativa que mistura dramaturgia com literatura de cordel, Suassuna ocupou um espaço intermediário entre o popular e o erudito e se tornou a principal marca de um Movimento Armorial, que surgiu no Nordeste dentro desse conceito e ficou conhecido nacionalmente. O Auto da Compadecida é um bom exemplo que resume bem o estilo desenvolvido por ele", salienta Sônia Pascolati, pesquisadora da área de dramaturgia do departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da Universidade Estadual de Londrina.
CHICÓ
O personagem principal da obra mais popular de Ariano Suassuna acabou se tornando o apelido do professor de história e diretor do Colégio Nobel, Alisson Sanches. "Li o livro Auto da Compadecida na adolescência e me identifiquei com a linguagem de Suassuna. Quando fizeram a adaptação para o cinema e a TV, eu e um amigo reproduzíamos as falas de Chicó e João Grilo. Não demorou muito pra começarem a me chamar de Chicó. Cheguei a ganhar de presente de aniversário cinco livros e oito DVDs do Auto da Compadecida. A morte de Suassuna foi uma perda irreparável", conclui Sanches.


