Laços familiares são o tema de Nas Profundezas do Mar sem Fim
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quinta-feira, 30 de dezembro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 30 (AE) - É um daqueles filmes talhados para o mercado de vídeo e DVD - um drama familiar com formato de telefilme que o público das locadoras já descobriu e entrou para a lista dos mais retirados. "Nas Profundezas do Mar sem Fim" está em quarto lugar entre os vídeos mais retirados e nono entre os DVDs. Inscreve-se na tendência que antigamente se chamava de womans picture, os filmes de mulheres. Nada de aventura e pancadaria, como nos filmes que o público masculino adora, mas o retrato delicado do sofrimento de uma mãe brutalmente separada do filho. Veja e, de preferência, conserve o lenço à mão para secar alguma lágrima furtiva.
Michelle Pfeiffer é a intérprete do papel. Ela também está em "A História de Nós Dois, que estréia sábado nos cinemas, mas já tem sessões a partir de amanhã (30). Já é mais do que tempo de fazer justiça à bela Michelle. A ex-caixa de supermercado há muito tempo deixou de ser apenas um rosto bonito. Dela não se pode dizer que sofra da síndrome de Marilyn Monroe, que lutou a vida inteira contra o preconceito que a rotulava como loira burra, tentando mostrar que era também uma atriz. Michelle não é Bette Davis nem Katharine Hepburn, mas faz tempo que ganhou credibilidade como atriz.
E nem precisou enfeiar-se (no caso dela, seria impossível) para convencer como a mãe de Nas Profundezas do Mar sem Fim". O filme dirigido por Ulu Grosbard é uma adaptação do romance da jornalista americana Jacquelyne Mitchard. Michelle é Beth Cappadora. Quando o filme começa, ela está se despedindo do marido e, em companhia dos três filhos (dois meninos e uma menina), parte para outra cidade, onde se realizará a festa de reencontro da sua antiga turma na escola. Acontece uma tragédia: Beth deixa o filho menor aos cuidados do irmão por um minuto, apenas para resolver um problema na portaria do hotel. É o quanto basta. O menino desaparece.
Durante dez longos anos ela amarga a experiência de não saber onde ele está. E um dia, ao abrir a porta da própria casa, descobre nesse garoto desconhecido à sua frente que, sim, é ele. O que parece o final feliz é apenas o recomeço do drama. A família que conseguiu sobreviver a duras penas ao desaparecimento quase não consegue suportar o reaparecimento. Acirram-se os conflitos, os ressentimentos. É o que confere certa originalidade a uma trama que poderia ser banal e sentimentalóide.
Não é um desempenho para o Oscar (e Michelle nem chegou a ser cogitada para o prêmio). Mas ela passa para o espectador toda a vulnerabilidade de Beth. Mérito dela, claro, mas também do diretor Grosbard. Nascido na Béligica, ele emigrou para os Estados Unidos para trabalhar em teatro e cinema. Fez mais filmes ruins do que seria tolerável, mas a partir de determinado momento - Confissões Verdadeiras", no começo dos anos 80 - começou a revelar qualidades até então insuspeitadas.
Elas prosseguiram com "Amor à Primeira Vista, aquele drama romântico com Meryl Streep e Robert De Niro. Chegam agora a "Nas Profundezas do Mar sem Fim. Grosbard confirma-se como um diretor que sabe orientar seus atores, especialmente as atrizes, para interpretações delicadas e sinceras. Não é só Michelle que está bem. Whoopi Goldberg também marca presença como a policial lésbica que dá apoio a Beth. Mulher, negra e homossexual, ela sabe tudo sobre o que é ser (ou sentir-se) marginalizada. Não é um filme sobre sequestro. É um filme sobre laços familiares, sobre o que aproxima e afasta as pessoas, sobre o amor (e a culpa) entre irmãos. Por isso mesmo, a solução para o drama vem por meio dos irmãos, quando eles transformam o jogo num exercício de vida. Serviço - Nas Profundezas do Mar sem Fim (In the Blue Deep of the Ocean). EUA, 1998. Direção de Ulu Grosbard, com Michelle Pfeiffer, Treat Williams e Whoopi Goldberg. Colorido, 110 min. Lançamento simultâneo em DVD e vídeo pela Columbia. Já nas locadoras.


