Labirintos de arte e história
ESTAÇÕES DE METRÔ DA CAPITAL RUSSA SÃO ATRAÇÃO
TURÍSTICA DESDE OS TEMPOS DE COMUNISMO
Paulo Boni
Especial para a Folha Turismo


fotos Paulo Boni



Estação Komsomolskaya: painéis pintados em pastilhas no teto (no detalhe) e iluminados por lustres cinematográficos retratam a formação histórica da Rússia.



Uma nevasca em Moscou não significa necessariamente um dia perdido. A cidade oferece inúmeras opções, em recintos fechados, para você aproveitá-lo bem. Museus, igrejas ortodoxas ricamente decoradas e exposições de arte existem à fartura. Mas um programa diferente e extremamente barato é conhecer as estações do maior e mais entrelaçado sistema metroviário do mundo.
Pelo preço de uma passagem (R$ 0,28) é possível passear pelo metrô de Moscou, fazendo interligação em suas 11 linhas operacionais, uma das quais circular (que circunferiza todo o centro da cidade). São 167 estações em funcionamento, algumas a mais de 150 metros de profundidade. Em diversas interligam-se três linhas, criando verdadeiros labirintos de história, beleza e cultura por corredores e escadarias que parecem intermináveis.
Além de toda luxuosa infra-estrutura, nas estações o turista pode apreciar as mais diversas formas de manifestação artística.
Desde os tempos do comunismo o metrô tem sido sistematicamente usado como atração turística. Ao contrário de uma porção de lugares turísticos em Moscou, pode-se fotografar livremente em seu interior. As estações são exemplos reluzentes da onipotência que o regime comunista queria passar para os cidadãos soviéticos.
A doutrinação política de um regime forte, vencedor, foi amplamente pregada nas estações do metrô através da arte. Em praticamente todas as estações, obras de arte enalteciam o regime, suas réplicas, suas vitórias e seus heróis. Há estações que, com diferentes manifestações artísticas, homenageiam as repúblicas que compunham a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, cidades dessas repúblicas ou mesmo bairros de Moscou.



A maior parte das estações do metrô de Moscou são acabadas em mármore. Lustres - alguns de cristal - e luminárias são atrações à parte.

Estátuas e painéis Batalhas vitoriosas do povo soviético e, principalmente, dos bolcheviques também são artisticamente lembradas e retratadas. Na maioria das estações, no entanto, isolada ou conjuntamente, algum tipo de homenagem a Lenin, uma verdadeira lavagem cerebral através do culto à personalidade.
A maior parte das estações do metrô de Moscou são acabadas em mármore de diversas cores e tonalidades (em algumas, inclusive o piso). Lustres (alguns, inclusive, de cristal) e luminárias são atrações à parte. Além de toda luxuosa infra-estrutura, em praticamente todas as estações o turista pode se deleitar com as mais diversas formas de manifestação artística: estátuas, esculturas, pinturas, mosaicos, pastilhas, vitrais...
Na estação Komsomolskaya, por exemplo, enormes painéis pintados em pastilhas, no teto e iluminados por lustres cinematográficos, retratam em etapas a formação histórica da Rússia. É uma verdadeira lição de história e arte. Na estação Ploshchad Revolutsil, que dá acesso à Praça Vermelha, 40 estátuas de bronze, em tamanho mais de duas vezes maior que o natural, homenageiam a bravura, a dedicação e o trabalho dos bolcheviques que fizeram a revolução de outubro de 1917.
A estação Byerlorusskaya homenageia a República da Bielorússia através de uma enorme estátua de bronze que lembra a bravura de seu povo durante a segunda grande guerra mundial. Os bielorussos, de todas as repúblicas soviéticas, foram os que se voluntariam em maior número para participar da guerra e sua participação sempre foi reverenciada pela bravura destemida de seus combatentes (homens e mulheres). Além da estátua, diversos painéis pintados em pastilhas recuperam o folclore, as tradições, o esporte, as artes, o trabalho e a bravura da Bielorússia.

As estações são
luxuosas galerias
populares onde
se pode apreciar
esculturas, mosaicos,
pinturas e vitrais.


Escritos poéticos O poeta Maiakowski, um dos grandes nomes da poesia pró-trabalhadores do regime comunista também é política e artisticamente homenageado na estação Mayakovskaya. Lá estão um busto de bronze e representações de seus escritos poéticos. E assim, sucessivamente, outras estações prestam, através de arte, as mais diversas homenagens.
Toda essa arte nas estações do metrô de Moscou serviu como instrumento de doutrinação do regime comunista. Claro que isso caracteriza uma atitude politicamente incorreta. Mas, independente de julgamento ou ideologia, ela existe e está lá. E que sorte a nossa podermos desfrutá-la! Até parece mais um episódio daqueles em que o tiro saiu pela culatra. O que era ideológicamente doutrinador acabou se transformando em popularização da arte.



Primeira estação foi inaugurada em 1929

No inverno, quando a neve interdita ruas e a temperatura externa chega a 30 graus negativos, no metrô a temperatura é condicionada a 25 graus positivos.O metrô de Moscou começou a ser construído no início da década de 20, exatamente por ocasião da implantação do regime comunista. A primeira estação, Arbatskaya (este é o som da pronúncia do nome da estação em inglês) foi inaugurada em 1929. O sistema, desde então nunca deixou de crescer. Atualmente, 20 novas estações estão em construção. Algumas, já em fase de acabamento.
O sistema foi planejado e construído para oferecer condições seguras e eficientes de transporte. No inverno, quando a neve interdita ruas e a temperatura externa chega a 30 graus negativos, no metrô a temperatura é condicionada a 25 graus positivos.
A frequência dos trens é impressionante. As linhas mais lentas intervalam seus trens em apenas três minutos. Nas mais movimentadas, em horários de pico, o intervalo entre um trem e outro é de menos de um minuto.
Todos os pontos turísticos de Moscou são atendidos por uma das linhas do metrô. A malha metroviária é realmente extensa e o sistema é, indiscutívelmente, o mais importante meio de transporte dos moscovitas. Diariamente, são registradas cerca de sete milhões de entradas em suas catracas. Isso não significa necessariamente que sete milhões de pessoas se utilizem dele diariamente, pois uma mesma pessoa pode utilizá-lo várias vezes num mesmo dia. Mas é um número no mínino respeitável para uma cidade que abriga próximo de 10 milhões de habitantes. (P.B.)

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