Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Juca Chaves é um homem essencialmente romântico. Aos 60 anos é pai de Maria Clara, que acaba de completar 11 meses, e como todo pai coruja anda com uma porção de fotos da menina para mostrar a quem estiver por perto. A esse perfil junta-se o do cidadão que questiona, indaga, reflete e se irrita. Tudo isso vai parar no palco, mais precisamente no espetáculo ‘‘Socorro!!!’’, em cartaz hoje e amanhã, no Teatro Fernanda Montenegro.
O título é inspirado no brasileiro que passa a vida à espera de ser socorrido, passando por todas as instâncias - do vereador ao presidente da República. Deixando a falência moral da política, eleva-se a Deus que a estas alturas, segundo Juca, também deve estar cansado com tantas lamúrias, frutos diretos de nossos problemas nacionais.
Sem amparo, o cidadão se desespera, mas mantém a esperança do milagre por puro comodismo. ‘‘Isso não existe’’, despacha Juca. Eleger um político esperando pelo milagre é fantasia. Foi o que aconteceu com a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso.
‘‘O brasileiro acreditou demais no governo e o governo está traindo. Sem contar que ele está preocupado apenas com a chamada crise econômica, e não com a crise cultural que é mais importante. Você pode ter todo dinheiro do mundo, mas sem cultura e educação, não vai ter nada.’’
Crítico, reflexivo, mas bem-humorado, Juca não dispensa o riso para alfinetar o que deve ser alfinetado. E na qualidade de menestrel não se separa do alaúde para cantar as modinhas que, ao lado de sua irreverência, são a marca registrada de uma carreira iniciada em 1959. ‘‘Em outubro completo os 40 anos de prostituição artística’’, brinca.
Tempos melhores aqueles em que a corrupção não passava dos 10%, e inspirou uma de suas mordacidades mais conhecidas: ‘‘Caixinha, Obrigado’’. Desses idos são também ‘‘Brasil Já Vai à Guerra’’ e ‘‘Presidente Bossa-Nova’’. A lâmina de suas palavras, como se vê, vão da prosa à partitura. O tempo não cegou a capacidade do corte.
Mesmo assim há um pouco de desencanto, confessa o artista. ‘‘A Iarinha (Iara, sua mulher) já me chamou a atenção para isso, disse que estou um pouco judaico. Mesmo quando marco gol, intimamente sei que foi um gol feio.’’
Ele se diz uma pessoa que conseguiu tudo aquilo que poderia almejar, mas foi com muita luta. E hoje, ao ver que os importantes postos das gravadoras, da imprensa são ocupados por profissionais sem cultura, é devastador. O que ele vê são comerciantes, sem qualquer vínculo com a arte em si.
Ainda assim o humor está em alta, com muita sátira sobre os políticos, líderes, ‘‘reação e oposição’’ e novas piadas recheando a montagem. Não fosse assim, o que seria do menestrel maldito?
Ele avisa que neste espetáculo foram incluídas somente duas canções. Uma delas ádiz que ‘‘o tempo apaixonado/ é um escultor’’. Este, pacientemente modela os corpos dos amantes.
Mas para a modinha que também é uma de suas marcas registradas, Juca Chaves dedicou outra montagem, que foi levada no Teatro Municipal de São Paulo, com quarteto de cordas e coral lírico, além de uma temporada de mais de um ano no Rio de Janeiro e dois meses em Belo Horizonte. O menestrel pensa em voltar a Curitiba, se possível ainda este ano, para trazer esse concerto. Dependerá, nesse caso, de acerto com patrocinadores.
• ‘‘Socorro!!!’’, show com Juca Chaves. Hoje, às 21 horas, e amanhã, às 19 horas, no Teatro Fernanda Montenegro, no Shopping Novo Batel. Ingressos: R$ 20,00 (descontos para aposentados e maiores de 65 anos). Mais informações pelo telefone (0 + código da operadora + 41) 224-4986.Com seu humor corrosivo e singular, Juca Chaves mostra hoje e amanhã, em Curitiba, o espetáculo ‘‘Socorro!!!’’
Arquivo FolhaJuca Chaves: ‘‘O governo está mais preocupado com a chamada crise econômica do que com a crise cultural que é mais importante’’

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