Milton DóriaNitis Jacon: ‘‘Eu não fiz só o festival. Quem vê isso é uma pessoa injusta e enxerga muito perto...’’Nitis Jacon admite que a vida toda correu riscos: de desgaste da imagem, econômica-financeira... Não eram muitas as mulheres que, há 30 anos, saíam com gente jovem, pela madrugada, fazendo teatro. Hoje, mais uma vez, ela põe sua imagem - intimamente ligada ao Festival de Teatro - em risco, ao pleitear uma vaga na Assembléia Legislativa do Estado. E, mais uma vez, com a segurança de quem sabe onde pisa. E onde quer chegar.
Você acha que como deputada seria mais fácil conseguir recursos para o teatro?
Nitis Jacon - Veja bem, não é uma questão de se conseguir verba para o teatro. De certa forma é preciso que fique claro: há pessoas que pensam que eu só faço teatro e quem pensa assim não vê bem. E mesmo que eu tivesse feito só teatro acho que estaria fazendo o bastante. Entretanto, se trata dos projetos que a gente vê dentro da universidade. Eu penso que a minha candidatura é uma candidatura da Universidade de Londrina que nunca teve um candidato para a Assembléia, nunca teve um deputado na Assembléia. Ora, se eu atuo como candidata da universidade eu estarei atuando no sentido de uma política cultural, que não existe, de uma política acadêmica que é precária, de uma política científica que se arrasta interminavelmente e não chega nunca lá. E ao atuar nesse tipo de política eu também estarei extrapolando a própria Universidade de Londrina e fazendo um trabalho educacional para o Estado todo. Então, acabo não ficando limitada a Londrina e à universidade. Será um projeto que extrapola da universidade para o ensino superior do Estado e para a educação de um modo geral já que fui professora em Arapongas, tenho uma atuação como professora, trabalhei com escolas de periferia em Londrina e em Arapongas.
Foi uma decisão própria ou existiram pessoas que disseram: ‘‘Nitis, vá!’?
Nitis Jacon - Fui muito estimulada e assediada para entrar na política.
Por quem, por exemplo?
Nitis Jacon - Pelo PSDB.
A comunidade cultural também?
Nitis Jacon - A comunidade cultural também. Eu tenho recebido esse apoio muito mais no momento em que começou a ser discutida essa questão da... da estimulação do partido. O Olivir Gabardo (quando presidente estadual do PSDB) veio me visitar porque o partido está realmente empenhado em aumentar o número de candidatas.
E o nome Nitis Jacon é um grande chamariz, você há de concordar...
Nitis Jacon - São muitos anos de atuação, muitos anos de trabalho. Tenho trabalhado minha vida inteira sempre em projetos muitas vezes polêmicos, mas todos eles bastante significativos em todas áreas. Mesmo na área da saúde que as pessoas muitas vezes não sabem que tenho atuado como diretora clínica, como secretária de Saúde de Arapongas. Então eu tenho uma atuação em várias áreas. E eu devo dizer que o nome fica bastante conhecido. A gente espera que seja conhecido positivamente. Então, fui estimulada a participar e a decisão que eu tomei foi refletida, ponderada. E a partir do princípio em que verifico que há possibilidade de vir a atuar em todos aqueles projetos dentro da universidade. Esses quatro anos na universidade foram muito decisivos para isso.
Você não tem idéia de quanto vai gastar. A campanha vai ser na base de amigos e recursos próprios...
Nitis Jacon - E muita gente amiga está se dispondo a trabalhar gratuitamente.
Tem a questão do Filo e será inevitável as pessoas falarem que é seu grande palanque. É um grande palanque?
Nitis Jacon - Eu acho que ele tem sido um grande palanque. Tanto que sou mais conhecida pela minha atividade cultural.
Principalmente neste ano.
Nitis Jacon - Principalmente nesse ano, é inevitável. Se você passa sua vida se dedicando a uma causa, ainda que sejam várias causas, é uma causa que aparece mais. Inevitavelmente você vai ter isso como palanque. E eu tenho amigos que trabalharam comigo, pessoas envolvidas com cultura de um modo geral, no Brasil e fora do Brasil. Então, no Estado, sem dúvida nenhuma, eu conto muito com essas pessoas. Sabemos que o critério pra escolha para ocupação de cargos sobretudo na área da cultura não é da competência; é um critério político.
Se você se eleger deputada, o grupo Proteu fica como?
Nitis Jacon - Eu não pretendo deixar o Proteu. Durante esses quatro anos na Universidade de Londrina eu continuei trabalhando no festival porque eu sou ainda uma peça decisiva para a sua concretização, principalmente no que se refere à captação de recursos.
E da própria imagem que é necessária...
Nitis Jacon - Exatamente. Eu capto porque eu tenho essa imagem de ‘‘Ah, a Nitis vem a풒, ‘‘Ih, lá vem a Nitis, dá logo o dinheiro antes que...’’, tem muita gente que pensa assim. Porém, do ponto de vista da organização foi extremamente saudável porque me afastei e tem uma equipe que organiza e que realiza o festival com uma participação muito menor minha...
Mas uma coisa está clara como água: a Nitis, diretora, está cada vez mais distante...
Nitis Jacon - É, distante... Nesses quatro anos, é nisso que eu ia chegar, eu me afastei, não dirigi o grupo porque achei que era muito mais importante que estivesse mais presente na universidade e acompanhando os projetos todos. Eu não fiz só o festival. Mentira. Quem vê isso é uma pessoa injusta e enxerga muito perto...
Se você for eleita você fica afastada por mais quatro anos...
Nitis Jacon - Quatro anos ou oito, eu não sei, né? Mas eu estarei sempre ligada à atividade cultural e ao teatro.
Você não teme o desgaste da sua imagem caso não seja eleita?
Nitis Jacon - Bem, eu tenho corrido esse risco a vida inteira. A vida inteira eu corri riscos de desgaste da imagem, econômica-financeira, etc. Das amizades, das pessoas que às vezes não compreendiam que uma mulher em Arapongas, há 30 anos, saísse com gente jovem, rapazes e moças trabalhando de madrugada, para fazer teatro. Isso representou um desgaste. Muita gente não compreendia, interpretava equivocadamente. Foi um desgaste que com o tempo foi superado. É esse que é o timming que você tem que dar. Hoje, acho que elas me respeitam muito.
Vamos falar de teatro? Como vai o Filo, vai bem?
Nitis Jacon - Vai muito bem. Eu acho que nesses anos na nossa chapa...
Eu pergunto se ele está com dinheiro?
Nitis Jacon - Está melhor do que esteve anteriormente. Esta é a quarta edição dentro da nossa administração. O Filo tem muito melhores condições. E isso eu agradeço muito ao reitor (Jackson Proença Testa) que teve essa sensibilidade de nos apoiar muito.
Mas o problema, Nitis, é que a cada ano tem aquela ladainha de falta de dinheiro...
Nitis Jacon - É, todo ano e nós continuamos. É aquela história: eu tenho por exemplo a promessa do dinheiro. Então, o governo do Estado me garantiu um recurso que não é aquilo que eu havia pedido, mas enfim...
Você pediu quanto?
Nitis Jacon - Pedi R$ 500 mil e ele está me dando R$ 250 mil. De qualquer forma, eu tenho que reduzir a proposta inicial. Nós todos, eu não faço mais nada sozinha porque meu grupo me assessora. Então tivemos que reduzir a proposta original.
Que era de quanto mesmo?
Nitis Jacon - O Internacional era de R$ 1,5 milhão.
E foi reduzido para quanto?
Nitis Jacon - Nessa altura eu estarei fazendo... Veja bem, os dois festivais com a verba que a gente terá, eu nem vou declinar quem deu quanto, a não ser o governo porque ele declarou inclusive nos jornais...A Mostra Internacional e Regional, que agora também é Nacional de Teatro Universitário, nós estaremos fazendo em torno de R$ 1,2 milhão.
E já ‘‘temos’’ quanto?
Nitis Jacon - Nós temos quase isso. Falta o meu encontro com a prefeitura porque a Câmara de Vereadores aprovou uma emenda de R$ 200 mil para o Filo.
Isso foi um milagre, Nitis?
Nitis Jacon - Isso é inédito. Sou muito grata a essa Câmara. Foi exatamente quando eles também me deram o título de Cidadã Honorária de Londrina. Trago essa grande alegria como também foi aprovado o título de Cidadã Honorária de Arapongas por unanimidade, sou grata, mas só que não foi sancionada a lei até hoje.
Mas a de Londrina você recebeu e recebeu também um presente.
Nitis Jacon - Recebi essa emenda. Foi inédita e sou grata à sensibilidade e compreensão da Câmara. Foi uma proposta da Elza Correa, que é uma vereadora combativa, uma pessoa extraordinária dentro da Câmara que contribui muito para todos os projetos e todos na Câmara. Então está aprovado. Eu terei uma conversa com a Prefeitura e tenho certeza que poderemos contar com a Prefeitura.
Falta pouco dinheiro então?
Nitis Jacon - (risos) Falta receber, bem!
E você precisa desse dinheiro até quando?
Nitis Jacon - A Mostra Regional/Nacional começa dia 24. Eu já fiz um plano de desembolso para o governo do Estado, estou no aguardo que o governador assine para que a gente possa começar a receber. Eu tenho certeza que ele vai fazer isso, ele nunca me deixou na mão. Eu passei apertos, mas ele nunca me deixou na mão.
Deu no jornal: o prefeito Antonio Belinati disse que parte do dinheiro da privatização da Sercomtel vai para a construção do teatro municipal. Você acredita nisso, Nitis?
Nitis Jacon - Eu tenho que acreditar, né?
Você também acreditou na palavra do Cheida.
Nitis Jacon - Eu acreditei. Inclusive, o Belinati nos deu um terreno alguns anos atrás. Deu o terreno na abertura de um de nossos festivais, na última legislatura dele. E eu acreditei. Hoje, é verdade que nesse terreno, está construído o PAI (Pronto Atendimento Infantil). Mas uma parte do terreno está lá. Eu dei uma entrevista ontem dizendo que há vários espaços na cidade que podem ser ocupados, não só esse espaço, como do lado do Igapó que tem terrenos belíssimos. E Londrina... Veja bem, a injustiça não é só com o festival. Temos projetos cênicos acontecendo na cidade que são importantíssimos, de pequenas comunidades que ninguém sabe e que o Festival está trazendo para fazer encontros no Filo. Agora, temos aquele Lago Igapó belíssimo e que não é explorado turisticamente. Ali seria um belo lugar para se fazer um belo teatro, com espaço ao ar livre, com espaço de encontro cultural. Devo conversar com o prefeito nos próximos dias. Ele quer conversar comigo sobre esse assunto.
Ou seja, mais uma vez você vai acreditar?
Nitis Jacon - Vou, vou sim. Se eu não tivesse acreditado eu teria parado de fazer o festival na ditadura. Foi tão difícil, foi mais difícil que agora.

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