DivulgaçãoSilvia Tessuto e Fernando Portari: ‘‘Nós temos aqui, com segurança total, o melhor elenco possível no Brasil’’O Teatro Guaíra, em Curitiba, estará encenando nos dias 23, 25, 27 e 29 a ópera ‘‘La Cenerentola’’ (Cinderela), de Rossini. Pela primeira vez, desde sua criação há 180 anos, a obra será encenada por elenco brasileiro. O ineditismo acontece graças à ousadia do Centro Cultural Teatro Guaíra, que programou o espetáculo como o primeiro da temporada lírica deste. Mais duas óperas serão produzidas pelo Teatro Guaíra em 1997.
Pelo que se tem notícia, a pouco conhecida ‘‘La Cenerentola’’ ocupou pela última vez os palcos nacionais na década de 70, com uma companhia lírica italiana. ‘‘Esta ópera é raríssima’’, comentou Fernando Portari, tenor que fará o papel de príncipe (Don Ramiro).
Segundo ele, em qualquer parte do mundo a montagem enfrenta um rosário de desafios. A peça exige um elenco muito específico, explica. ‘‘Nós temos aqui, com segurança total, o melhor elenco possível no Brasil. Os cantores são os ideais em todos os papéis, que aliás são extremamente difíceis’’.
Heroína revoltadaA Cinderela que o público verá neste espetáculo nada tem da pobrezinha dos contos de fadas, informa a mezzo-soprano Silvia Tessuto, que fará o papel-título. Apesar da vida limitada, marcada por humilhações, a garota não é conformista. Aparentemente ela se adapta à situação, mas aguarda o primeiro momento para cair fora do sufoco.
O regisseur Marcelo Marchioro deu nova visão para a história, que embora guarde ares da carochinha, vai além da narrativa clássica. De certa forma dimensionou algumas intenções do compositor italiano.
‘‘Rossini fez uma história diferente. Tirou de cena a madrasta e colocou um valete para o príncipe, que antes não existia. Isso para dar um caráter mais bufo. Ele não fez um conto de fadas, mas uma ópera bufa’’, diz a cantora.
Aproveitando a deixa, o diretor carregou nos traços da heroína. ‘‘Ele realmente fez quase um subtítulo, A Cinderela Rebelde, porque ela não é, de jeito nenhum, uma Cinderela boazinha’’, diverte-se Silvia. Como não sabia dessa proposta, a mezzo estudou o papel tomando o lado mais convencional.
A personagem que visualizou era cândida e ainda mais romântica. ‘‘Tive que desestruturar tudo quando vim para cᒒ, conta. A mudança está sendo um ótimo exercício de interpretação. Sua Cinderela é atualíssima. ‘‘Ela não se subjuga, não é submissa. Quando vê uma oportunidade para sair da situação, agarra como pode. E essa oportunidade é o grande baile do príncipe’’.
Entre as duas mulheres - uma meiga e dócil, e a segunda com a alma em chamas querendo mudar o destino - qual delas é a mais interessante de interpretar? Silvia Tossuto afirma que ambas são ‘‘interessantes’’, mas a segunda tem um cunho atual.
Abre-se também a possibilidade de o enredo ir não só diretamente às crianças, mas também ao adolescente, que por natureza traz um tempero de libertação e transformação. A cantora confessa que estava ‘‘um pouco relutante’’ em fazer o papel de uma garota meiga, até porque a partitura não conduz a isso. ‘‘A visão de Marchioro me fez acordar para uma realidade e eu gostei muito’’.
Ingênuo e bem nascido Quando esteve aqui em ‘‘La Boheme’’, o tenor Fernando Portari viveu o papel de um estudante pobre na gelada Paris do século 19. Desta vez é um príncipe que precisa se casar para assumir o trono. Ingênuo e bem nascido o nobre ‘‘cultiva dentro de si sentimentos puros, sem interesses, até porque tem tudo, não precisa de nada’’, segundo o tenor.
Ao deparar com Cinderela à sua frente, encanta-se pela força da jovem. Assim como o atrai, ela também o assusta pela determinação. Neste momento Don Ramiro está destituído de sua condição de príncipe. Ele trocou sua identidade pela do camareiro, Dandini (Sandro Christopher), pois quer observar as mulheres e ser amado por aquelas que não estejam atrás de sua fortuna.
A paixão que nasce entre os dois, de imediato, ganha outras feições no peito de Cinderela. Naquele criado da corte pode estar um trampolim para mudança de vida, deduz. Começa então uma manobra sutil, tentando tirar proveito para si própria. ‘‘Mas Don Ramiro continua naquele sonho, naquele amor. Acho até que ele é apaixonado pelo amor; é um romântico por excelência’’, completa Portari.
q La Cenerentola - de Rossini. Com Silvia Tossuto, Fernando Portari, Sandro Christopher, Pepes do Valle, Simone Foltran, Silvia Suss, Lukas D’Oro. Regisseur: Marcelo Marchioro. Regência e direção musical: Osvaldo Colarusso. No Guairão, dias 23, 25 e 29 às 20h e dia 27 às 18h. Ingressos: R$ 15,00 (platéia), R$ 10,00 (1º balcão) e R$ 5,00 (2º balcão).

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