La Barca De Fo
Que divisão ocorre na alma de um homem que chega para a conquista de uma terra e se depara com uma violência que ele não imaginava de seus pares, agredindo povos pacíficos de uma terra recém-descoberta? Quando esse homem - aqui, naturalmente um europeu - passa para o outro lado da linha divisória, e se introduz na vida dos indígenas, que estranhamento vai encontrar, numa cultura tão diversa?
Essas questões são tratadas com muito humor na peça La Barca DAmérica, de Dario Fo, estrelada pelo ator Herson Capri, que estréia nacionalmente hoje, em Curitiba, no Teatro Fernanda Montenegro. Herson Capri aposta suas fichas naquilo que, acredita, será um grande sucesso.
A peça é uma aventura alucinada, um turbilhão: uma hora e dez de espetáculo onde não param de acontecer coisas. Eu narro as ocorrências e vivo aquilo que estou narrando. Ela é uma explosão, explica.
Para o ator, o espetáculo tem tudo para manter-se em cartaz, por anos. Durante a entrevista ele não citou seus colegas, mas se Fernanda Montenegro tem sua Dona Doida e Paulo Autran o seu Quadrante, por que ele não pode carregar seu personagem no futuro?
O artista curitibano que se deu bem nos palcos paulistas, antes de chegar ao Rio, e tem contrato assinado com a TV Globo até 2001, está em Curitiba acompanhado da mulher, Susana Garcia, co-diretora do espetáculo, e do filho mais novo, Lucas, de 1 ano e meio. Somando-se aos demais parentes, a família Capri fica ainda mais completa, pelo menos até domingo.
Estrear La Barca DAmérica em Curitiba tem uma coisa diferente, algo do tipo estou na minha terra?
Essa coisa diferente existe, sem dúvida. Seria muito mais barato e mais viável estrear no Rio de Janeiro. Estaria na minha casa, não teria problemas de hotel e de alimentação para a equipe. Lá eu tenho o teatro da Casa da Gávea. Mas eu resolvi fazer fora do Rio, até como teste de mim mesmo. Aí achei que deveria começar com um grande desafio: fazer na minha terra, onde estão meus pais, meus amigos e meus parentes que são as pessoas mais críticas que existem na vida da gente. E também porque tem esse lado afetivo, sim. Eu sou orgulhoso de ser curitibano. Curitiba é uma cidade que corresponde à fama dela de Primeiro Mundo. É a mais Primeiro Mundo do Brasil, sem dúvida nenhuma. Mas estou aqui, principalmente, porque sou muito bem tratado, e as pessoas são muito simpáticas, educadas e doces.
Você disse que esta peça é um de seus maiores desafios. Por quê?
Por vários motivos. Primeiro: é um monólogo. Sozinho tenho o desafio de enfrentar uma platéia, conquistá-la e mantê-la com a atenção presa. E não é só isso - tenho que agradá-la. Uma peça com muita gente, muito cenário, muito texto é mais fácil. La Barca DAmérica tem cenário, figurino, até música, mas é tudo comigo. Em segundo lugar, a direção é minha. É a primeira vez que dirijo em minha vida e, dificuldade maior ainda, estou dirigindo a mim mesmo. Além de tudo isso sou eu que organizo toda produção. Resumindo: este é meu primeiro monólogo, minha primeira direção, estou dirigindo a mim mesmo, a produção é minha e fui eu mesmo que fiz a tradução. É delicado, as pessoas podem me achar pretensioso, mas me dei ao direito de arriscar, de tentar. Se não der certo, não faço mais.
Por que você tomou a si todos esses encargos?
Primeiro resolvi que estava na hora - com 31 anos de carreira - de fazer um monólogo. Eu acho o monólogo como algo determinante na vida de um ator. Ele traz um amadurecimento, um crescimento muito grande no ofício de representar. Então resolvi fazê-lo. Como não gostei da tradução que encomendei, eu mesmo traduzi. Ao terminá-la, depois de meses e meses, vi que ninguém no Brasil conhecia mais este texto do que eu. Então, ninguém melhor do que eu sabia como dirigir aquele texto. E assumi a produção porque, se faço tudo, quem vai produzir para mim?
Com este trabalho, daqui para a frente sua carreira sofre alguma mudança?
No mínimo, como ator, vou crescer muito. Posso não dar certo como diretor; não ser tão bom como produtor e mesmo que a peça fosse um fracasso (não vai acontecer, tenho certeza), ainda assim como ator o crescimento já está estabelecido em mim. Só o fato de ensaiar todos os dias, eu sozinho; pensando em agradar uma platéia, estudando um texto difícil, engraçado, exercitando a comédia, isso com certeza já está me dando um amadurecimento e um aprimoramento muito grande do meu ofício.
O autor, Dario Fo, trabalha com um tipo de humor baseado na crítica social. La Barca DAmérica faz pensar?
Com certeza. A comédia tem um conteúdo crítico muito forte, que é a principal característica de Dario Fo. Ela leva o público à reflexão das falhas do homem que o fazem viver momentos terríveis, como está vivendo. Dario trabalha isso muito bem, porque o faz com humor, com alegria. A platéia ri muito. Não é uma comedinha boba, é uma comédia com conteúdo.
Você vive um único personagem ou divide-se entre o invasor e o invadido?
Essa é a chave da peça. O autor coloca no mesmo personagem os dois pontos: ele é um europeu, portanto com sangue de conquistador, que chega às Índias (entre aspas, porque a América ainda era considerada as Índias) com os espanhóis conquistadores. Chega e percebe qual é a relação, como é que os conquistadores se comportam com aqueles índios que são generosos, puros, de alma boa. Em função de riqueza, os espanhóis praticam a morte, praticam justamente o anticristianismo que eles tanto pregavam. Então o italiano, que é meu personagem, se vê diante dessa contradição e vai para o lado dos índios. Mas ele acaba tendo seu próprio choque cultural e aí fica muito engraçado. Porque ele tem a sua religião, os seus costumes que os índios não entendem. E também os costumes dos índios ele não entende. Então há momentos hilariantes e ao mesmo tempo críticos.
Então você não sai da pele do italiano?
Não saio, mas incorporo a cultura indígena. É interessante essa coisa do enfrentamento cultural; são duas culturas que se enfrentam e começam a se entender. A mensagem final é linda: há possibilidade de duas culturas diferentes se juntarem e formarem uma terceira tão boa quanto as duas primeiras, pegando as melhores qualidades de cada uma.
La Barca DAmérica - de Dario Fo. Direção e atuação de Herson Capri. Estréia hoje no Teatro Fernanda Montenegro (telefones 224-4986 e 222-4484). Até sábado sessões às 21 horas. Domingo às 19 horas. Ingressos: quinta, sexta e domingo R$ 15,00; sábado R$ 20,00.DivulgaçãoHerson Capri: A peça é uma aventura alucinada, um turbilhãoZeca Corrêa Leite





