"Kundun", que conta a vida do dalai-lama, estréia amanhã
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de abril de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio
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quarta-feira, 07 de abril de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio
São Paulo, 08 (AE) - Aproveitando a presença do dalai-lama no País, finalmente entra em cartaz "Kundun", de Martin Scorsese. Por que a demora? Simples. Porque esta cinebiografia do dalai-lama, ostensivamente simpática à causa tibetana, tem enfrentado resistências da China. E ninguém, muito menos a distribuidora norte-americana do filme, deseja indispor-se com um mercado potencial de mais de 1 bilhão de pessoas. Mercado é a palavra-chave do nosso presente, a razão de tudo e um pouco mais.
Daí a importância desse filme sobre personagens que, ao menos em princípio, situam-se um tanto quanto fora do tempo, à margem desse ethos que convencionou associar ao liberalismo ocidental. Não deixa de ser estranho que seja Scorsese, ítalo-americano tão firmemente ancorado em sua realidade novaiorquina, o autor dessa saga, que vai da infância de Tenzin Gyatso, passa pela revelação de que ele seria a 14.ª encarnação do Buda e segue até a invasão chinesa e a anexação do Tibete, quando ele teve de deixar o país e exilar-se na Índia.
Tem sido apontado o paradoxo de que um cineasta da violência, como Scorsese, tenha filmado a vida de alguém tão devotado à resistência não violenta. Não é bem assim. A situação do Tibete, e por extensão a do dalai-lama, exilado há 40 anos, é tudo menos pacífica. Uma das cenas mais impressionantes de "Kundun" mostra Gyatso cercado por cadáveres e sangue, literalmente perdido num mar de horror. Mas, verdade, não é essa a nota dominante do filme. Scorsese procura aproximar-se, respeitosamente, de uma realidade que não conhece muito bem. De algo que não compreende, porém de que intui a grandeza. Por isso, trabalha com tratamento visual solene e manipulação do tempo deliberadamente lenta - auxiliado pela música de Philip Glass que se integra às imagens ao ponto de confundir-se com elas - quer dizer, de não ser ouvida como música autônoma destacável do que se passa na tela, o que é o melhor elogio que se pode fazer a uma trilha sonora.
Há uma fase mais linear do filme, quando Scorsese faz o espectador acompanhar o debate do dalai-lama com a China comunista e Mao Tsé-tung em pessoa. Nesses momentos de embate mais explícito entre interesses conflitantes - de um lado a defesa da espiritualidade em sua forma teocrática; de outro, a rígida administração das coisas na ordem maoísta - o filme se torna mais claro. A limpidez vem de uma acomodação típica: o espectador sente-se tranquilo quando se definem os lados do bem e do mal porque a isso foi habituado por décadas de cinema comercial.
Mas esses momentos mais nítidos são também os menos satisfatórios. Scorsese anda melhor quando silencia diante de algo que, como católico, sente, mas não expressa racionalmente: a presença misteriosa do sagrado e seu impacto sobre as pessoas.