Mário CésarRoberto Zinnerkoln: ‘‘A conversa
desta noite não será movida pela saudade,
vou falar de coisas que interessam’’Corria o ano de 1956 quando a sociedade londrinense se preparava para receber personalidades do Rio de Janeiro para um baile animado ao ritmo do charlestone. Mas, uma semana antes da festa, a sensação de tragédia iminente se alastrou entre os organizadores. Os ‘‘bacanas’’ do Rio não viriam mais. Sem atrativos, o baile estava condenado. A solução foi pedir socorro a Roberto Zinnerkoln, um jovem recém-chegado na cidade que tinha experiência no teatro e na televisão.
Koln, como era chamado, decidiu recolher notícias da época em que o charlestone ditava a moda e adaptar para um espetáculo com estética de trailer de cinema mudo. A festa foi um sucesso. Baile salvo, a idéia de formar um grupo de teatro na cidade tomou forma. Foi assim que surgiu o GPT - Grupo Permanente de Teatro -, que montou diversos espetáculos em Londrina entre 1957 e 1964, a maioria com direção de Koln.
Mário César‘‘No GPT tivemos mais
de 150 pessoas, de
funcionários de
gráfica a promotor’’
Convidado pela Secretaria de Cultura de Londrina, Roberto Zinnerkoln está na cidade para um bate-papo sobre teatro. Além de rever os amigos - há cerca de 20 anos ele não aparece em Londrina - e falar sobre as atividades do GPT, Koln também vai destacar outros detalhes da produção teatral. ‘‘Não é uma conversa movida pela saudade, eu vou entrar em assuntos e aspectos que interessam atores, estudantes e o público em geral’’, comenta, em entrevista realizada por telefone à Folha.
Roberto Zinnerkoln nasceu em São Paulo. Filho de imigrantes húngaros, Koln se acostumou ao teatro desde a infância. ‘‘Brinquei de teatro desde os quatro anos em São Paulo. Todas as colônias estrangeiras faziam teatro com a língua-mãe’’, comenta.
Da colônia para os palcos foi um pulo. Já em 1950 Koln trabalhava com o Teatro do Estado de São Paulo e em 1955 já estava na TV Tupi. Chegou em Londrina com 19 anos e, pouco tempo depois salvava o baile de charlestone. ‘‘Um dos que se entusiasmaram com a idéia de formar um grupo de teatro foi o Antônio Vilela de Magalhães, que tinha feito escola de artes dramáticas e deu nome ao GPT. Ele inventou tudo e depois largou a bomba na minha mão’’, comenta, bem-humorado.
Nas conversas com Vilela, Koln explicou que já havia feito ‘‘O Noviço’’, de Martins Pena, em São Paulo. O espetáculo foi montado pelo GPT, até então vinculado à Sociedade de Cultura Artística de Londrina - Scal. ‘‘Essa Sociedade de Cultura já tinha apresentado alguma coisa na cidade, mas não vingou’’, explica Koln. Posteriormente o GPT seguiria seu próprio caminho.
‘‘O Antônio Vilela de
Magalhães inventou
tudo, depois largou
a bomba na minha mão’’
‘‘O Noviço’’ teve duas apresentações em 1957, e contava com Ruth de Souza no elenco, considerada uma ‘‘excelente atriz’’ por Koln. Foi a primeira peça do GPT, que ensaiava e se apresentava em um auditório do Colégio Hugo Simas. O segundo espetáculo do grupo foi uma reunião de ‘‘Antes do Caf钒, de O’Neill, ‘‘Dos Malefícios do Tabaco’’ e ‘‘Um Pedido de Casamento’’, ambas de Tchekov. Foi um sucesso que rendeu quatro apresentações. O terceiro espetáculo foi uma leitura dramática de ‘‘Antígona’’, de Sófocles.
CodinomeNessa mesma época Roberto Koln era proprietário das Óticas Avenidas, e escrevia uma coluna social na Folha com o pseudônimo de Sadi Safad. A alcunha fazia sucesso e poucas pessoas sabiam do segredo.
Ainda em 1957 o GPT montou ‘‘Os Filhos de Eduardo’’, de Sauvajon e ‘‘O Boi e o Burro a Caminho de Belém’’, de Maria Clara Machado, esta a pedido do prefeito Antônio Fernandes Sobrinho para o encerramento da Semana Médica daquele ano. A peça tinha um elenco de 26 pessoas e incluía a passagem de Virgem Maria, de burrico, pelo Bosque da cidade, puxado por São José. Tudo acompanhado por um coral. A peça lotou o centro da cidade.
Em 1958 a Faculdade de Direito passou a ocupar o Hugo Simas, e o GPT teve que abandonar o auditório do colégio. ‘‘Aí o Vilela teve a idéia de alugar o auditório da Rádio Alvorada, na Rua Goiás. Iniciamos uma grande campanha para reformar o ambiente’’, recorda Koln. O aluguel foi pago pela prefeitura, a sociedade ajudou com várias doações. Grande parte das poltronas foram doadas por médicos.
‘‘Era um teatro totalmente comunitário. Procurávamos na comunidade pessoas que se encaixassem em papéis específicos, numa espécie de type casting. Todo espetáculo tinha gente nova, mais de 150 pessoas passaram pelo GPT. Tivemos desde funcionários de gráfica a promotor’’, ressalta Roberto Koln.
Com as doações, o novo espaço foi inaugurado no final de 1958, com ‘‘A Tia de Carlitos’’, de B. Thomas. O diretor já havia convidado a atriz inglesa Haidée Bittencourt, da Royal Academy Dramatic Art para encenar ‘‘Pigmalião’’, de Bernard Shaw. Mas a atriz só chegaria em fevereiro. Para tapar o buraco, o GPT montou ‘‘O Auto da Compadecida’’, de Ariano Sussuassuna. ‘‘Tinha um grupo que brincava de teatro na Catedral e chamamos para participar do GPT. Os jovens me trouxeram várias batinas e a peça foi um grande sucesso’’, assegura Koln. ‘‘Pigmalião’’ só estreou em junho de 59, ano em que Londrina comemorava 25 anos.
No início de 1960 o grupo conseguiu patrocínio da Maltaria e Cervejaria Londrina, que, além da publicidade, ainda emprestava a marcenaria para a elaboração de cenários. Com o equipamento, Roberto Koln montou ‘‘A Raposa e as Uvas’’. A peça contava ainda com uma bela atriz, chama Marisa, e teve receptividade do público: ‘‘O problema foi que, apaixonada por um alemão, Marisa se casa com o sujeito uma semana após conhecê-lo. O papel ficou vago por falta de substituta’’. O jeito foi montar outra peça, ‘‘A Revolta dos Brinquedos’’.
Linha políticaO grupo seguiu montando vários espetáculos. Em 62 os problemas se configuraram: ‘‘Eu já estava cansado e havia um pessoal ligado a um partido político que resolveu assumir o teatro. Fiquei meio bravo porque queriam dar uma linha política para os espetáculos. Então eu parei, e passei o ano de 1963 em São Paulo’’, comenta Roberto Koln.
Oscilando entre Londrina e São Paulo, o diretor acompanhou o fim do grupo e resolveu dar baixa no registro: ‘‘As poltronas do teatro foram doadas à Associação Médica de Londrina e todo o guarda-roupa foi para o programa de TV do Queirolo’’. O pior aconteceu com os originais de vários textos que, esquecidos debaixo das goteiras do lugar, apodreceram.
‘‘Durante todos esses anos eu estudei muito a história do teatro, e formei uma grande biblioteca, com mais de 3 mil volumes. O Grupo de Teatro Permanente deixou uma marca, mas não sei se houve uma transferência direta do nosso trabalho para as outras gerações’’, argumenta.
Em São Paulo, Koln trabalhou como decorador de interiores, dirigiu grupos de teatro do Banco Nacional, trabalhou na Cia. Gerald Thomas e atuou em ‘‘Retrato de Mulher’’, na Globo. Atualmente, Roberto Zinnerkoln é membro do Júri do Mapa Cultural Paulista da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. Hoje, o bate-papo com o diretor será realizado às 20 horas, no Teatro Zaqueu de Melo (Avenida Rio de Janeiro, 113) em Londrina.

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