KOELLREUTTER FALA DO FUTURO
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de novembro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
O espírito das vanguardas baixou nos últimos dois dias em Londrina. Mas nem o mais entusiasta dos ismos que sacudiram o século suportaria duas horas de calor e monotonia verbal, ainda que o expositor fosse o guru de gente como Júlio Medaglia, Rogério Duprat, Cláudio Santoro, Arrigo Barnabé, Tom Zé e José Miguel Wisnik.
Mesmo assim, houve quem disfarçasse os bocejos e resistisse até o final da palestra do compositor, maestro, esteta e professor Hans-Joachim Koellreutter na quinta-feira no Anfiteatro do Cesa na Universidade Estadual de Londrina (UEL). A platéia de cerca de 150 pessoas era formada por músicos, estudantes e professores alguns deles, discípulos assumidos do visitante.
Vivemos em um século em que não temos mais ninguém para admirar. Felizmente, o senhor existe declarou alguém das poltronas durante um breve intervalo. Ele é um visionário, é o últimos dos profetas afirmou o estudante de arquitetura Ulisses Papa, 20 anos. Koellreutter formou gerações de músicos, regentes, teóricos e professores desde que chegou ao país em 1937.
Avatar do novo, foi um dos responsáveis pela difusão da música contemporânea no Brasil numa época em que o nacionalismo romântico ainda dava as cartas. O Departamento de Música da UEL é um dos pólos privilegiados em que sua influência mais se fez notar ao longo das décadas de 80 e 90, e cuja extensão atravessa métodos de ensino alcançando até a produção de um programa de rádio.
Aos 85 anos, Koellreutter tem tropeços de memória, o que o obriga a sempre dispor de alguém ao lado para auxiliá-lo durante entrevistas ou longas dissertações. Na quinta-feira, o pianista Sérgio Villafranca fez-lhe companhia na mesa. O mestre falou pausadamente sobre o futuro da música na era tecnológica e sobre o ensino dela a partir das transformações operadas pela máquina.
Alertou sobre os perigos de uma civilização mecanizada enfatizando o caráter coletivo da arte. Apenas um mundo integrado culturalmente nos salvará salientou. O mundo tecnológico criou seus próprios meios de expressão. Estes surgiram inteiramente de seu mundo material e mental. A questão agora é conquistá-lo e colocá-lo sob o controle do espírito humano observou mais adiante.
Na platéia, a estudante Andréa Nascimento, 26 anos, prestava especial atenção à explanação. É que estou preparando uma monografia que toca em alguns pontos dessa abordagem disse. O guitarrista Fábio Fujita, 22 anos, da banda de rock Vermes do Limbo, também estava entusiasmado: Gostei da visão dele sobre o mundo digital.
O estudante Rodrigo Ito, 24 anos, acrescentou que ele está trazendo informações que não se restringem à área musical. Para José Ricardo Passeti, 21 anos, o que mais o atrai na obra de Koellreutter é sua pedagogia musical voltada para a contemporaneidade. Depois de um intervalo de 15 minutos, que fez com que metade dos ouvintes debandasse da sala, Koellreutter ilustrou o elogio do último entrevistado.
Leu um texto no qual propôs uma reformulação do ensino musical, a defesa do conceito de arte funcional e a convocação dos professores para incorporar as experiências dos jovens a seu universo pedagógico. Não adianta recorrer a métodos fechados de ensino, que copiam o passado sublinhou ele. Devemos, isto sim, elaborar e desenvolver métodos que deixam o futuro aberto. O risco, o experimento, a negação das regras inveteradas e caducas, são elementos essenciais da atividade artística. O passado é um meio e um recurso, de maneira nenhuma um dever.
Ontem, as homenagens a Koellreutter prosseguiriam com um recital e lançamentos de CD e vídeo.


