O espírito das vanguardas baixou nos últimos dois dias em Londrina. Mas nem o mais entusiasta dos ‘‘ismos’’ que sacudiram o século suportaria duas horas de calor e monotonia verbal, ainda que o expositor fosse o guru de gente como Júlio Medaglia, Rogério Duprat, Cláudio Santoro, Arrigo Barnabé, Tom Zé e José Miguel Wisnik.
Mesmo assim, houve quem disfarçasse os bocejos e resistisse até o final da palestra do compositor, maestro, esteta e professor Hans-Joachim Koellreutter na quinta-feira no Anfiteatro do Cesa na Universidade Estadual de Londrina (UEL). A platéia de cerca de 150 pessoas era formada por músicos, estudantes e professores – alguns deles, discípulos assumidos do visitante.
‘‘Vivemos em um século em que não temos mais ninguém para admirar. Felizmente, o senhor existe’’ – declarou alguém das poltronas durante um breve intervalo. ‘‘Ele é um visionário, é o últimos dos profetas’’ – afirmou o estudante de arquitetura Ulisses Papa, 20 anos. Koellreutter formou gerações de músicos, regentes, teóricos e professores desde que chegou ao país em 1937.
Avatar do novo, foi um dos responsáveis pela difusão da música contemporânea no Brasil numa época em que o nacionalismo romântico ainda dava as cartas. O Departamento de Música da UEL é um dos pólos privilegiados em que sua influência mais se fez notar ao longo das décadas de 80 e 90, e cuja extensão atravessa métodos de ensino alcançando até a produção de um programa de rádio.
Aos 85 anos, Koellreutter tem ‘‘tropeços’’ de memória, o que o obriga a sempre dispor de alguém ao lado para auxiliá-lo durante entrevistas ou longas dissertações. Na quinta-feira, o pianista Sérgio Villafranca fez-lhe companhia na mesa. O ‘‘mestre’’ falou pausadamente sobre o futuro da música na era tecnológica e sobre o ensino dela a partir das transformações operadas pela máquina.
Alertou sobre os perigos de uma civilização mecanizada enfatizando o caráter coletivo da arte. ‘‘Apenas um mundo integrado culturalmente nos salvarᒒ – salientou. ‘‘O mundo tecnológico criou seus próprios meios de expressão. Estes surgiram inteiramente de seu mundo material e mental. A questão agora é conquistá-lo e colocá-lo sob o controle do espírito humano’’ – observou mais adiante.
Na platéia, a estudante Andréa Nascimento, 26 anos, prestava especial atenção à explanação. ‘‘É que estou preparando uma monografia que toca em alguns pontos dessa abordagem’’ – disse. O guitarrista Fábio Fujita, 22 anos, da banda de rock Vermes do Limbo, também estava entusiasmado: ‘‘Gostei da visão dele sobre o mundo digital’’.
O estudante Rodrigo Ito, 24 anos, acrescentou que ‘‘ele está trazendo informações que não se restringem à área musical’’. Para José Ricardo Passeti, 21 anos, o que mais o atrai na obra de Koellreutter é sua pedagogia musical ‘‘voltada para a contemporaneidade’’. Depois de um intervalo de 15 minutos, que fez com que metade dos ouvintes debandasse da sala, Koellreutter ilustrou o elogio do último entrevistado.
Leu um texto no qual propôs uma reformulação do ensino musical, a defesa do conceito de arte funcional e a convocação dos professores para incorporar as experiências dos jovens a seu universo pedagógico. ‘‘Não adianta recorrer a métodos fechados de ensino, que copiam o passado’’ – sublinhou ele. ‘‘Devemos, isto sim, elaborar e desenvolver métodos que deixam o futuro aberto. O risco, o experimento, a negação das regras inveteradas e caducas, são elementos essenciais da atividade artística. O passado é um meio e um recurso, de maneira nenhuma um dever’’.
Ontem, as homenagens a Koellreutter prosseguiriam com um recital e lançamentos de CD e vídeo.

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