Rubens Pileggi Sá
De Londrina
Especial para a Folha2
Aos 84 anos , o professor, músico, maestro, compositor e autor de livros sobre filosofia da estética Hans Joachim Koellreutter continua cheio de projetos musicais e com sua agenda lotada para participar de eventos, encontros, palestras e festivais em todo o País e também no exterior. Sua vida e sua obra estão sendo filmadas em documentários de vídeo e cinema, várias teses universitárias tem sido dedicadas a ele, além de programas de rádio e matérias especiais em jornais, como recentemente quando foi capa do caderno de cultura da ‘‘Folha de São Paulo’’.
Nascido em 2 de setembro de 1915, em Freiburg, na Alemanha, desembarcou no Brasil há 62 anos, em novembro de 1937, fugindo do nazismo - delatado pelos próprios parentes que trabalhavam para o Reich - como simpatizante comunista. Passou dificuldades financeiras, morou em favela, lavou vidros de edifícios, foi intoxicado com chumbo ao trabalhar na gravação de chapas para música e ainda foi preso sob suspeita de espionagem nazista, em 1942, junto com japoneses e nazistas que, logicamente, o hostilizaram.
Além disso, trouxe renovação no pensamento musical, em terreno aberto pelo modernismo. Fundou escolas e movimentos, como o Música Viva em 1938, foi diretor do departamento de música da Universidade da Bahia no fim da década de 50 e o começo da década de 60 - uma experiência das mais libertárias e radicais de ensino até hoje no País -, diretor do Instituto Goethe em várias partes do mundo de 63 a 80 e ainda fala dez línguas. Deu aulas a maestros, compositores, pianistas, músicos populares e eruditos como Tom Jobim, Tom Zé, Claúdio Santoro, Diogo Pacheco, Isaac Karabitchevisky, Guerra Peixe, entre tantos outros.
Criador de composições nada convencionais, já regeu operários tocando suas ferramentas como se fossem instrumentos musicais e uma de suas peças mais importantes, o ‘‘Acronon’’, é executada com uma esfera de cristal transparente, com a partitura pintada em cima. Atualmente prepara a musicalização do ‘‘Fausto’’ de Goethe e do ‘‘Macunaíma’’ de Mário de Andrade.
Saudado como o introdutor no Brasil do atonalismo - método de composição que utiliza a totalidade dos recursos da escala cromática - e do dodecafonismo - sistema baseado no uso de 12 semitons da escala musical - é também o responsável pelas primeiras audições de música medieval por essas terras. Sua vida e obra são marcadas por debates estéticos e filosóficos, dos quais alguns estão expostos a seguir, em entrevista concedida à Folha do Paraná/ Folha de Londrina em seu apartamento no centro de São Paulo, um local confortável e tranquilo, no meio do inóspito caos do centro da cidade.
Sua visão de mundo é muito humanista, mas nossa sociedade é cada dia mais controlada por um lado e, por outro, tem uma massa de excluídos fermentando o bolo da discórdia social. Diante disso, como poderá ser a arte do futuro?
Há um choque naturalmente, mas trata-se de um choque produtivo porque os problemas são importantes para conscientizar. Isso se faz através do ensino, discussão, etc. Nós não podemos mudar o mundo.
A música dodecafônica e atonal poderia intervir nessa situação? Como que essa música se enraíza na cultura?
Atualmente o atonal é uma outra linguagem, é como aprender um outro idioma. Naturalmente tem que se fazer um esforço de sentido e tentar aprender esse alfabeto, essa gramática, que se chama harmonia e contraponto, que com o tempo vai se entendendo também. Não é nada de extraordinário. Não tem outro jeito, todos nós aprendemos isso com consciência.
O senhor costuma afirmar que tudo é relativo. Mas esta afirmação não se torna absoluta?
A vida toda em última análise é relativa em relação aos outros, à sociedade, etc. Quer dizer, todos os elementos que temos em torno de nós sempre são interdependentes, eu diria. Mas eu não disse que são relativos à relatividade e sim relativo ao ser-humano.
O senhor fala sempre em interdependência e isso entra no terreno da física. Como é possível essa interdiscipinaridade?
Eu acho que se deve estudar interdisciplinarmente. Justamente por causa dessa interdependência das nossas idéias, dos nossos modos de viver, pintar ou fazer música, que sempre dependem do mundo em torno de nós e também junto com outras pessoas. E principalmente a interdisciplinaridade entre as matérias, quer dizer, entre música com matemática ou com psicologia, por exemplo. Esse ponto de vista é muito importante para entender os fenômenos sociais e culturais.
E como isto se aplica à arte?
Olhe, eu estive recentemente na exposição do Flávio de Carvalho (N.R. arquiteto e artista plástico atuante do movimento modernista). Alí você pode ver como o artista vive realmente na sociedade. Eu trabalho com meus alunos nesse sentido. Eu não sei tudo, mas passo livros para eles lerem.
Mas para o senhor um físico pode pegar uma partitura musical e resolver uma equação?
Não. O físico teria de estudar um pouco de música para depois fazer os estudos comparados. Olhe, eu tenho um artista plástico que trabalha comigo e vou fazer com ele um curso de estudos comparados entre música e artes plásticas e outras matérias, se não me engano no MIS (Museu da Imagem e do Som, SP), acho, mas não tenho certeza.
O que o senhor chama de discussão holística?
É a discussão globalizante. Isso vai se desenvolver cada vez mais. A gente não vai mais analisar os objetos, mas processos entre os objetos.
Isso é o que o senhor chama de superação do dualismo?
Iah!
Pode-se dizer isso em relação às ideologias?
Certamente se pode dizer isso até um certo ponto. Depende também da posição da pessoa que fala. Em última análise, todas essas questões, uma explica a outra. É interdependente. Assim também deve ser tratado o ‘‘adversário’’. Eu sempre me despeço dos meus colegas de outras cidades dizendo ‘‘dá um abraço nos meus amigos e nos meus inimigos também’’. Porque sem meus inimigos, os amigos não adiantam nada. Tudo isso é interdisciplinar.
Toda ação corresponde a uma reação?
Toda a física é baseada em Newton. Naturalmente as coisas se ampliaram.
É por isso que o senhor diz em suas palestras que ‘‘a história é um processo de inclusão’’?
É a integração de todos os fenômenos. Isso é que é o fenômeno holístico, que em grego quer dizer inteiro. Olhe, uma das maiores músicas do atonalismo é o concerto para violino de Alban Berg (peça de 1935), que de fato já é uma fusão do tonal e o atonal. Alban Berg, que era discípulo de Shoemberg.
A entrevista com Koellreutter continua na página 6.