Klink critica burocratas
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terça-feira, 28 de novembro de 2006
Antonio Gonçalves Filho<br> Agência Estado 
Após passar um inverno inteiro na Antártica e um verão no Ártico, em 1989, navegando 27 mil milhas em 642 dias, o navegador paulistano Amyr Klink, então com 34 anos, concluiu ser seu veleiro polar Paratii muito mais que um barco competente. Era o barco com que sempre sonhara. Simples e prático. Quase 20 anos depois, Klink continua achando que veleiros não devem ter tantas toneladas de chumbo nem ostentar todos aquele cabos e pecinhas que fazem a delícia dos colecionadores de miniaturas.
Klink conclui, enfim, que o Brasil tem potencial para ensinar ao mundo como construir um barco simples e não dar mais as costas ao mar, como o País vem fazendo nas últimas décadas. Tudo isso está em ''Linha d'Água'', livro que lança no dia 4, no qual critica não só os burocratas, empenhados em colocar obstáculos a seus projetos, como o desprezo dirigido às mais simples e geniais invenções brasileiras, entre elas a jangada de piúba.
Foi justamente essa embarcação - única do mundo sem leme - a inspiração de Klink quando deu início ao projeto de construir seu barco Paratii 2, com o qual realizou uma reedição da circunavegação polar entre 2003 e 2004. A modesta jangada que os pescadores brasileiros usam - e tanto encantou o cineasta Orson Welles (Cidadão Kane) - acabou servindo de modelo para o casco do sofisticado barco de Klink. Usando o mesmo conceito da jangada, o nosso herói do mar enfrentou a desconfiança de técnicos, a ''arrogância'' de engenheiros navais e a ira de patrocinadores, ao recusar a incorporação de materiais inadequados para um design tão simples e funcional como o do Paratii 2.
Tímido, Klink não aparenta ser um voluntarioso comandante que impõe a superioridade hierárquica a tripulantes ou patrocinadores, mas perdeu a paciência com um deles e fez uma agência de publicidade perder a conta do mesmo. ''Não o fiz por capricho, mas por preferir um acabamento espartano e um barco que não desperdice materiais'', justifica, concluindo que o Brasil volta as costas para o mar e só pensa nele quando o marketing entra em ação. Ele critica os governos que, até por preguiça, criminosamente aterram hidrovias, no lugar de construir pontes, dificultando a vida de quem navega.
O livro de Klink, apoiado no sucesso do outros lançados pela mesma Companhia das Letras (''Mar sem Fim'' e ''Cem Dias entre Céu e Mar'', entre outros), já sai com uma tiragem de 41 mil exemplares. Deveria ser leitura obrigatória para os governantes que, segundo ele, vivem ''castrando'' vias aquáticas, citando como exemplo a malha de comunicação por canais naturais que existia entre Santos, São Vicente e Bertioga, ''amputada'' por pretensos planejadores urbanos.
Em 2007, Klink leva em seu barco o mundialmente famoso fotógrafo Sebastião Salgado, empenhado em documentar a fauna marinha da Antártica para seu projeto Gênesis. Sorte de ambos. Klink não gosta de filmar ou fotografar. Prefere ver um belo furacão austral a registrá-lo.


