Kleber e Aquarius
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quarta-feira, 18 de maio de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>De Cannes, especial para a Folha 2 
Foi uma sessão de gala inesquecível, na terça-feira. Após a montée de marches tradicional pelo tapete vermelho mais cobiçado do planeta o Oscar há muito se conformou com a condição de vice, e nem tem planos para impeachment, já que é prática incomum nas democracias, digamos, sustentáveis , o público que lotou o Grand Theatre Lumière assistiu a um dos melhores filmes da safra 2016. E esta é referencia é urbi et orbi.
Kleber havia chamado a atenção há três anos com seu primeira longa de ficção, "O Som ao Redor", perfil, frente e verso da luta de classes numa comunidade recifense, filme feito com rigor e inventiva cinematográfica. Embora menos heterodoxo, "Aquarius" é mais ambicioso e mais acabado e que, além de fazer a radiografia socio-política a partir da crônica familiar, desenha ainda o retrato microscópico de uma façanha individual. O centro magnético do filme é a atuação extraordinária de Sonia Braga, que ressurge agora em Cannes após ver sua celebridade, adquirida a partir de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" e em filmes da década de 1980, ser diluída pela roda viva da televisão, no Brasil e nos Estados Unidos.
Sua personagem é Clara, 65 anos, viúva, classe média confortável, aposentada como jornalista musical. Vive em seu antigo apartamento à beira-mar em Recife. No momento ela está sendo insistentemente assediada por uma grande construtora, que planeja comprar o imóvel dela para construir outro, modernoso. Clara é a ultima que resta no edifício, e sua resistência é feroz diante de toda sorte de investidas da incorporadora. A criação de Sonia é extremamente rica, de uma riqueza tão intima quanto expansiva, estimulada por um firme caráter. Clara não quer ficar sem um passado, uma memória. O gesto de permanência simboliza sua posição diante de um país hipotecado pelo crescimento insustentável e pela corrupção sistêmica dos poderes de modelo neoliberal.
"Aquarius" não é apenas participante da competição, mas está de igual para igual com melhores que até agora passaram por aqui.
O sólido e bem armado roteiro de Kleber divide a história em três segmentos. Começa em 1980, celebrando os 70 anos de uma tia de Clara. Neste momento, a personagem acaba de se curar de um câncer de mama. Logo o filme salta para o presente. E logo fica evidente que o Kleber se recusa a tratar Clara como um fantasma de outro tempo, sobrevivente caduca em um mundo em extinção. E toma partido dessa mulher-Davi contra Golias, fica a seu lado, junto a seus desejos (inclusive sexuais) e à sua cruzada contra as estratégias imorais da imobiliária, contra a posição dúbia da filha que não compartilha de sua atitude supostamente subversiva.
Os conflitos geracionais e de classe estão organicamente ligados, e Kleber sabe bem como resolvê-los. O desenlace climático de "Aquarius" oferece impactante poder metafórico ao radiografar a canibalização das elites financeiras. Enquanto em "Macunaíma" o modernista Mario de Andrade figurava um Brasil devorado pelas saúvas, um pós-moderno Kleber Mendonça, transcendendo o estudo psicológico de uma personagem inesquecível, fez de "Aquarius" o réquiem por um mundo irrecuperável, um passado-presente (e futuro?) carcomido pelos cupins.


