KITSCH BAHIA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de maio de 2000
Da Redação 
Quem não se lembra da letra vamos abrir a roda, enlarguecer, vamos abrir a roda..., cantada em tudo quanto é rádio do Brasil pela baiana Sarajane? Se nunca ouviu, vai ter a oportunidade de conhecer esta e outras pérolas da música popular da Bahia no espetáculo NPB Novíssima Poesia Bahiana, apresentado hoje e amanhã no Festival Internacional de Londrina.
Às 21 horas, os cinco atores do grupo Los Catedrásticos, de Salvador, sobem ao palco do Cine-Teatro Ouro Verde para encenar uma comédia, roteirizada a partir de letras de músicas bastante conhecidas do público, especificamente dos gêneros axé music e pagode. Em cinco atos, o grupo faz uma sátira aos esquemas econômicos, estéticos e culturais do Carnaval da Bahia.
Esta sátira, feita a partir de uma desconstrução do evento baiano, suscita questões sobre os modos de relacionamento entre artistas, público e mídia, sob a ótica da indústria cultural. O grupo acredita na associação da música e da comédia está a principal vertente popular da arte dramática brasileira e que a grande síntese disso é o Carnaval. Vivemos numa Idade Mídia. O mundo todo vive hoje uma sociedade do espetáculo (pop, virtual, etc) onde a carnavalização é o próprio cotidiano.
Um mosaico absurdo e hilariante é o que Los Catedrásticos prometem como resultado da encenação destas músicas. O grupo faz questão de deixar claro não estar contra as músicas que levam ao palco. O que visamos é a um visão folclórica, tipo capoeira-pra-turista, da Bahia e sua cultura. Os compositores retratam com perfeita exatidão esse universo consumista e kitsch.
Eles complementam que a força impressionante e a carga cultural de grupos como Olodum, Ilê Ayê e outros está fora de discussão. A existência desses centros culturais, segundo o grupo, veio substituir os candomblés como espaço de resistência das tradições afro-mestiças. Tudo isso, no entanto, não significa que não vamos olhar por baixo das melodias.
Los Catedrásticos assumem que o espetáculo é uma brincadeira, um divertimento, que foi ensaiado com extrema rapidez e sem nenhuma preocupação com o perfeccionismo. Enquanto forma, é uma mistura pop onde vale tudo, uma colagem de sucata gestual, rápida e descartável.
Em cartaz desde o final de 1997, o espetáculo foi apresentado mais de 200 vezes para um público superior a 30 mil pessoas. Com ele, o grupo gerou muita polêmica, que aliás foi cuidadosamente cultivada e tem acontecido sempre.
NPB Novíssima Poesia Bahiana, com o grupo Los Catedrásticos, de Salvador. Direção e roteiro: Paulo Dourado. Elenco: Cyria Coentro, João Miguel, Maria Menezes, Ricardo Bittencourt e Zéu Brito. Direção de Produção: Jerry Burgos. Cenário: Blade Cenografia & Design. Efeitos especiais: Fritz Gutmann. Iluminação: João Sanches.


