Veneza Ainda não foi desta vez que a euforia em torno de um grande, memorável filme tomou conta dos quase três mil jornalistas que cobrem esta 59 Mostra Internazionale d'Arte Cinematográfica de Veneza. Novas esperanças agora se voltam para Austrália, Inglaterra e Coréia, que ocupam as salas nos dois últimos dias da competição. Muito corre-corre, agitação, sala Palagalileo completamente tomada (1.800 lugares), televisão japonesa colhendo imagens e depoimentos, tudo para recepcionar o mais recente filme de Takeshi Kitano ( ''Beat'' Takeshi, como também é conhecido na tevê de Tóquio). Nenhuma decepção, mas nenhum arrebatamento.
Lançado em nível planetário aqui mesmo em Veneza, onde, em 1997, levou o Leão de Ouro com ''Hana-Bi'' (Fogos de Artifício) filme que levou a crítica a descobrir sua obra precendente, em especial ''Sonatine'', de 94 , Kitano voltou ao concurso este ano com ''Dolls''. A obra é construída em cima de três histórias de amor imortal, inspiradas pelas marionetes do Teatro Bunraku. Na primeira, dois jovens, amarrados na cintura por uma corda vermelha, vagam sem rumo em busca de algo que perderam. Na segunda, um velho chefe da yakuza (a máfia japonesa) volta ao parque onde há 30 anos se encontrava com a amada. E na última, uma jovem cantora pop desfigurada em acidente descobre o amor num admirador devoto que ficou propositalmente cego.
O amor, a passagem do tempo, a nostagia, a dignidade, o desencanto e os valores morais, vistos pelo filtro de uma forma muito próxima da abstração: disso são feitos os filmes de Kitano, cineasta sempre capaz de conjugar estilos, registros e reflexões heterogêneas. Se não chega a ser desafiante, a veia autoral está mais uma vez presente esprimindo, com genuína sinceridade, as dúvidas existenciais da humanidade. Mas é pouco para um prêmio máximo de festival. Ou talvez esteja de bom tamanho, especificamente para o pouco inspirado sortimento desta edição veneziana.
Magia, surrealismo e metáfora estão na mesma cesta básica de dois entre os últimos concorrentes, desde já descartados. Duas co-produções, síntese da globalização que aos poucos vai descaracterizando o cinema. ''Bear's Kiss''(''O Beijo do Urso''), de Sergei Bodrov, é um rito de passagem temperado pelo amor e pela morte e ambientado no mundo do circo. Realidade e fantasia se misturam no universo de Lola, a adolescente que ama o urso que a noite se transforma em Andrei, seu jovem amante, tudo em chave realista. O perigo de tais liberalidades é exatamente desconhecer os limites quase invisíveis entre sonho e realidade, entre o mundo real e a fantasia.
Em ''Julie Walking Home'', filme que marca a volta de Agnieszka Holland ao cinema europeu depois de um tempo americano, ocorre o mesmo. A história da jovem polonesa em busca da cura do filho com câncer jamais se resolve satisfatoriamente. E a tentativa de discutir conflitos raciais através de convicções religiosas resulta confuso. Fé, ciência, crendice popular, crise conjugal. É muito para hora e meia de filme.

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