Kiko Zambianchi volta com 'Disco Novo'
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domingo, 17 de fevereiro de 2002
Rodrigo Brancatelli Agência Estado 
Kiko Zambianchi era um daqueles nomes fadados ao esquecimento nos arquivos dos anos 80. Quando foi convidado a fazer uma versão em português para Hey Jude, dos Beatles, as rádios fizeram o auge da sua carreira, mas a crítica odiou. Depois da versão de Hey Jude, o roqueiro manteve o silêncio e não lançou nada por mais de 11 anos. Mas, com o sucesso que teve ao lado do Capital Inicial no Acústico MTV, vendendo mais de 900 mil cópias e fazendo por volta de 250 shows, decidiu que era hora de retornar. Agora, Kiko Zambianchi lança Disco Novo, produzido por Rafael, ex-Baba Cósmica.
Em entrevista, em um bar na Vila Madalena, ponto de agitação noturna em São Paulo, Kiko Zambianchi falou sobre o passado, reconheceu a importância do Capital Inicial para seu retorno e disse não ter medo de fazer sucesso. Mas o músico ainda se mostra magoado com as críticas que sofreu no passado e com o preconceito que sofre atualmente por ser uma artista dos anos 80. Não tem problema falar mal, eu mesmo não gosto do meu disco inteiro, mas tem que ter respeito com o artista.
Como foi gravar um novo disco depois de 11 anos longe dos estúdios?
Foi maravilhoso. Estou com 41 anos e sei o que dá certo e o que dá errado. Isso me tranquilizou. Agora estou mais atento. Mas ao mesmo tempo estou mais empolgado. Esse CD traz músicas e sonoridades que guardei ao longo de 11 anos e finalmente pude mostrar. Me dediquei ao trabalho e estou feliz por lançá-lo. Não me envergonho de falar de amor. Quis realmente deixar de lado assuntos como violência, política, pois iria soar falso e mentiroso.
Mesmo falando de amor no álbum, por que não inovar ou experimentar um pouco mais? Ficou com medo de soar pretensioso?
Não, isso é besteira. Fiz um monte de músicas, e deixei aberto para os outros escolherem qual iria ser gravada. Ainda tenho um álbum inteiro guardado, mas por enquanto quis fazer um disco para tocar nas rádios, para vender mesmo. Também não tenho vergonha disso. Realmente, não fiz um trabalho só para ganhar medalha ou parabéns dos meus amigos.
A gravadora não pressionou para gravar algum sucesso do passado, como Rolam as Pedras ou Primeiros Erros?
Primeiros Erros eu havia regravado com o Capital. A única faixa que eles pediram, e eu aceitei, foi Mancha e Intrigas, que o Erasmo Carlos gravou em 85, e que não estava em nenhum dos meus discos.
Foi uma escolha ter ficado 11 anos sem gravar?
Não fiz pausa porque quis. Parei porque não deram abertura para o meu trabalho, não tinha espaço. Mas eu tenho que comer, tenho que sustentar minha filha. Mas também sei colocar qualidade naquilo que vai para as rádios. A Marisa Monte faz um disco maravilhoso, deslumbrante, mas tem um Amor I Love You para tocar nas rádios, para chamar o público e vender milhares de discos.
Gravar a versão de Hey Jude, dos Beatles, foi um erro?
Essa de novo? Não foi um erro.
Mas ainda é um fardo para você ter gravado a música?
Eu só cantei. Só coloquei a minha voz em uma música que era trilha de novela. É que a coisa estourou de um jeito, e eu não soube segurar. O erro foi ter saído e não ter aproveitado o sucesso. Todos ganharam, menos eu. Podia ter aproveitado melhor a situação.
E por que não aproveitou?
Eles queriam que eu gravasse um disco inteiro com aquele estilo e virasse uma espécie de cantor romântico. Eu sou um compositor, mas eles não queriam as minhas músicas. Só queriam que eu cantasse as canções dos outros.
Por que estamos vendo a ressurreição de tantas bandas e nomes dos anos 80?
Não existe revival, é besteira.
Mas o Capital Inicial voltou, o Magazine também, o RPM...
Por que algumas pessoas querem acabar com os anos 80? Os artistas continuam. O problema é que tivemos que competir com o lobby do rock estrangeiro feito pelas gravadoras. Para elas, nós éramos folclóricos e eles chiques. Aí as bandas nacionais ficaram sem referência. O pop tem que voltar à cena e ocupar esse espaço de novo.
Existe ainda um preconceito com os anos 80?
O preconceito vem de pessoas da imprensa que não têm visão. Por que ficar tachando de anos 80, como se fosse uma porcaria? A gente ainda atura o Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa. Os anos 80 foram importantes, mas virou moda falar mal deles. Vai tentar fazer rock em português para ver como é difícil! É que nem o Zagallo disse: pode doer, mas vocês tiveram de engolir.
Para muitos, ficou a imagem que o Kiko Zambianchi foi resgatado pelo Capital Inicial. O quanto isso atrapalha?
Em nada. Foi legal e eu não fui um mero músico. Tive uma participação importante nos arranjos, e isso transparece. E foi um sucesso o disco, vendeu um milhão de cópias.
E agora você vai capitalizar o sucesso que você teve com o Capital Inicial?
Um disco solo meu era um passo óbvio. Em um show que eu fiz com o Capital Inicial, milhares de pessoas gritavam meu nome.
O sucesso do Capital não te assusta como o de Hey Jude?
É diferente você fazer sucesso cantando Primeiros Erros, que eu escrevi e arranjei, com o Capital Inicial do que ser intérprete de uma música que outro fez uma versão mais ou menos. O sucesso que tive ao lado do Capital, e o que espero que tenha com a minha carreira solo, só me dá satisfação.


