Kikikoi é dividido em três etapas
Kikikoi é dividido em três etapas
Dorico da SilvaKimiye Tommasino, Jorgisnei Rezende e Janete El Haouli: coordenadores do projeto multidisciplinar sobre o ritual kaingángOs índios kaingángs dividem-se internamente em duas metades - kamé e kairú. Cada uma tem sua pintura característica, os kamé com marca comprida e os kairú com marca redonda. Eles só se pintam durante o Kikikoi que é realizado uma vez ao ano, em março e abril. O Kikikoi, ritual oferecido pelos parentes de um morto recente, é dividido em três fogos. Jorgisnei Rezende explica que o termo Kikinoi significa garapa, bebida feita de pinga e mel, consumida durante o ritual.
Na primeira noite (chamada primeiro fogo), são acesos dois fogos, um para cada metade, do lado oeste para os kamé, e do lado leste para os kairú. Os rezadores cantam e tocam os chocalhos sagrados, e fazem desafios ao grupo da outro metade. A cerimônia dura cerca de duas horas.
A dualidade kamé-kairú também se faz presente na sonoridade das rezas - os kamé cantam mais forte, com mais intensidade, e os kairú, usam uma região diferente do aparelho vocal, que confere um som mais grave e menos audível. Durante todos os fogos as rezas são acompanhadas por chocalhos e cornetas, e o tamanho dos instrumentos determina sons graves ou agudos.
Um detalhe interessante é que, antigamente, as cornetas eram feitas de vareta de taquara, mas, hoje com a escassez dessa matéria-prima eles utilizam outros materiais para sua confecção, como canos e garrafas plásticas, e até latinhas de refrigerante. O importante para eles é o som que o instrumento produz, revela Rezende.
O segundo fogo, realizado na noite seguinte, é bastante parecido com o primeiro - são acesos quatros fogos, dois para cada metade, e eles cantam e dançam por duas horas. O terceiro fogo, o mais importante, acontece quatro semanas depois, quando parentes e visitantes de outras aldeias também participam. Durante toda a noite, os fogos ficam acesos e os participantes não dormem. Pela manhã vão ao cemitério para homenagear e liberar os espíritos dos mortos recentes. A antropóloga Kimiye Tommasino, conta que, dessa maneira os nomes dos índios mortos são devolvidos aos vivos.
De acordo com Jorgisnei Rezende, na visão do branco, as músicas não são das mais ricas em termos de variedade e melodia. Mas, na visão dos índios, a sonoridade é carregada de simbolismo - eles buscam imitar os sons e os gestos de bichos como o tamanduá, lagarto, serelepe (macaco) e pássaros, entre outros, explica. (C.P.)





