Kiarostami desvela olhar de garoto em 'Onde Fica a Casa do Meu Amigo?'
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quinta-feira, 23 de dezembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 23 (AE) - Qualquer tentativa de resumir o enredo de um filme de Abbas Kiarostami parece meio pífia. "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?", que estréia sábado (25), poderia ser resumido assim: um garoto passa o tempo todo procurando a casa de um colega de escola para lhe devolver um caderno. Parece nada. Menos que nada. No entanto, há todo um mundo, eventualmente desconhecido para o espectador, que se desvela sob o olhar do garoto.
Esse filme é de 1987 e só agora estréia no Brasil. Na época, 12 anos atrás, Kiarostami era um desconhecido, e não só no Brasil, mas na maior parte do Ocidente. Hoje, é o diretor famoso de "Gosto de Cereja" e "O Vento nos Levará". Tão consagrado que, com o troféu que este último filme ganhou (Prêmio Especial do Júri, em Veneza), declarou que não vai mais participar dos festivais para deixar os prêmios aos jovens.
"Onde Fica a Casa do Meu Amigo?" faz parte de uma trilogia informal. Os outros dois seriam "A Vida e Nada Mais" (1992) e "Através das Oliveiras" (1995). Os descaminhos da distribuição no Brasil fazem com que os dois primeiros tenham sido lançados e o título inaugural só saia agora. Não que isso prejudique tanto a compreensão, mesmo porque cada parte é pensada separadamente e funciona de maneira autônoma. Acontece que uma enriquece a outra. É como um diálogo do qual se ouvisse apenas uma das vozes.
Em "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?" aparece o tal garoto que busca o colega para lhe devolver o caderno. Em "A Vida e Nada Mais", um diretor de cinema sai pelo país, devastado por um terremoto, à procura do garoto que trabalhara com ele no filme de 1987. É um jogo de espelhos, em que uma história remete à outra. Em "Através das Oliveiras", há também um diretor de cinema, que tenta fazer o filme na região do terremoto. A trama toda se passa nos bastidores da suposta filmagem, cujo ponto de tensão central está no relacionamento entre um rapaz e uma moça. Ele e ela atraem-se, mas não se acertam porque pesa um interdito entre os dois.
O conjunto desses filmes funciona como um painel amplo e exemplar da maneira iraniana de se fazer cinema. "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?", por si só, é uma boa iniciação. Já se disse que Kiarostami é herdeiro do neo-realismo, mas esta aproximação talvez funcione apenas a título de orientação. Há pontos de contato entre o que ele faz e aquilo que propunha o cinema italiano saído da Segunda Guerra. Talvez o mais notável seja o emprego de atores não-profissionais, portanto, em tese, não-contaminados pelas técnicas de atuação. Busca-se a espontaneidade. Mas este não é bem o ponto porque um ator profissional sabe ser espontâneo à custa de muito trabalho - isto é, sabe fingir que não é profissional.
Mais interessante talvez seja pensar que o segredo de Kiarostami é ir ao encontro da vida simples, sem rebuscamento, focalizando as pessoas que ganham o pão no dia-a-dia, centrando a câmera nas crianças, que começam a decodificar um mundo ainda misterioso para elas. Ao mesmo tempo em que vai ao real, recusa o naturalismo, daí, o recurso constante à metalinguagem, sem que esta pareça nem deslocada nem artificial.


