Kevin Spacey vale o filme
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2000
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 24 (AE) - Há um motivo muito sério para se assistir a "Beleza Americana". É o ator Kevin Spacey, que concorre ao Oscar. Spacey é genial. Já o filme não é tudo aquilo que as referências da crítica dos Estados Unidos autorizavam esperar. Apadrinhado por Steven Spielberg, o diretor Sam Mendes é o atual queridinho de Hollywood. Sua fama é de revolucionário do teatro (com Cabaret). No cinema ainda tem de aprender. Tudo o que se pode e deve dizer de "Beleza Americana" passa pelo roteiro (de Alan Ball) e pelas interpretações.
O próprio roteiro, por mais brilhante que seja, não consegue disfarçar o amontoado de clichês que permeia a narrativa. Mendes pode nem conhecer Nélson Rodrigues, mas cria um universo de taras e perversões aparentado com o do grande dramaturgo brasileiro. Mostra que de perto ninguém é normal. "Beleza Americana" começa pelo fim. O personagem de Spacey anuncia a própria morte e conta os acontecimentos que marcaram seu último ano. Por meio dessa narrativa, Mendes estabelece sua versão do declínio do império americano.
A América pode ter sobrado como potência hegemônica após a derrocada do bloco soviético, mas, pela amostra do filme, não tem muito do que se orgulhar. É um mundo atolado num pântano moral. No centro do filme de Mendes está a célula familiar. Um rápido passeio da câmera por um conjunto de fotografias fixa momentos aparentemente felizes de uma família. Se eles foram mesmo felizes, estão congelados no passado.
Pai e mãe (Spacey e Annette Bening) vivem de aparência. Quando o filme começa ele revela que seu único momento feliz no dia é de manhã, quando se masturba durante o banho. Esse triste (anti)herói vive obcecado por uma coleguinha da filha. A mulher carreirista não é menos insatisfeita. Encontra prazer fugaz nos braços de um empresário triunfante, mas o sucesso dele é só fachada. Por trás, é a mesma miséria íntima. A filha problemática se liga ao filho do vizinho, um homófobo cujo maior pânico é que o rapaz seja gay.
Antes que o filme termine você vai descobrir a verdadeira origem desse pânico. E há a colega da filha, objeto do desejo de Spacey. Desejo e frustração, da qual ele consegue libertar-se. É o momento de grandeza de um homem quase sempre miserável e que se comporta como adolescente irresponsável ao romper com seu mundo fechado. O casal de adolescentes (os filhos rejeitados) parte para o que promete ser a felicidade. Só a personagem de Annette não tem grandeza alguma. Nem um só momento humano, o que faz dela uma patética caricatura de gente.
O título vem de uma espécie americana de rosa, bonita mas sem perfume. A beleza inútil vira metáfora por meio das pétalas que insistem em cair mesmo depois que o sentido já foi apreendido pelo público. Mendes quer ser crítico e desmistificador, mas não radicaliza. Arregla no desfecho. Martin Scorsese é radical até o fim em "Vivendo no Limite". Paga o preço por isso. Quem está no Oscar é o diretor de "Beleza Americana".


