Certa vez, o astrônomo Johannes Kepler (1571-1630) perguntou à sua mulher, Bárbara, após ela ter levado à mesa um prato de salada:
- Julgas que se desde a Criação pratos de estanho, folhas de alface, grãos de sal, gotas de azeite e pedaços de ovos cozidos flutuassem pelo espaço, em todos os sentidos e desordenadamente, o acaso poderia reuní-los para formar uma salada?
- Certamente - respondeu Bárbara -, mas não tão boa nem tão bem feita quanto esta aqui.
Predisposto a acreditar na existência de leis gerais e perfeitas, deduzidas de seus cálculos e reflexões, Kepler, como a maioria de nós, provavelmente conclui, em face à resposta da esposa, que, assim como a salada tinha uma autoria e portanto era produto de uma intenção, também a grande salada cósmica requeria um autor, e, por consequência, não poderia ser produto do acaso.
Alguns séculos depois, no longo prefácio à sua peça teatral ‘‘Volta a Matusalém’’, George Bernard Shaw (1856-1950) conta-nos ‘‘pelo fim da década de 1870, me encontrei um dia numa cela do velho oratório de Brompton discutindo com o Padre Addis, que fora chamado por uma de suas ovelhas para tentar a minha conversão ao catolicismo romano. O universo existe, disse o padre: alguém o deve ter feito. Se esse alguém existe, repliquei, alguém o deve ter feito. Admito isso em nome da discussão, tornou o oratoriano. Concedo-lhe que haja um criador de Deus. Concedo-lhe um criador do criador de Deus. Concedo-lhe uma série de criadores tão longa como o senhor queira. Mas uma infinidade de criadores é inimaginável e extravagante: não é mais difícil crer no número um do que no número cinquenta mil ou cinquenta milhões. Então por que não aceitar o número um e parar por aí, uma vez que nenhuma tentativa para ir mais além eliminará a dificuldade lógica? Se me permite, tornei eu, para mim é tão fácil crer que o universo se fez por si mesmo como crer que um criador do universo se fez por si mesmo: muito mais fácil, com efeito; pois o universo existe visivelmente e forma-se à medida que passa, enquanto um criador para ele é uma hipótese. Claro que nestes termos não podíamos ir mais longe. O padre levantou-se e disse que éramos com dois homens manobrando uma serra, ele empurrando-a para a frente e eu empurrando-a para trás e sem cortarmos nada’’ (trad. de João Távora, São Paulo, edições Melhoramentos, 1953, p.28).
Pouco importa o partido que tomarmos - se o de Kepler (e do padre Addis), se o de Bernard Shaw, ou dos defensores da teoria do Big Bang -, a ‘‘dificuldade lógica’’ persistirá, e nisso a razão, da qual os homens tanto se gloriam, em nada nos poderá ajudar, pois no cerne da questão encontram-se opções sempre incômodas como a de admitir que tudo possa ter surgido do nada absoluto, que Deus possa ter criado a si mesmo (sem antes haver um ‘‘si mesmo’’ a partir do qual pudesse criar, conforme observa a personagem Sofia, do best-seller de Josten Gaarder), ou que Ele ou o universo sempre tenham existido. Como essas ou qualquer outras possibilidades têm igual valor por serem indemonstráveis, também eu, pelo simples gosto de acrescentar complicações às já existentes, forneço a minha contribuição, dizendo que o Big Bang - hipótese, hoje em dia, a mais aceita pela ciência para explicar a origem do universo - talvez seja, na verdade, a enésima edição de uma explosão que sempre se repete e cujo estopim estaria fora do tempo (se estivessem certos os cientistas que acreditam que o universo se expandirá até determinado ponto para depois se retrair progressivamente - e, é claro, ninguém estará vivo para comprovar isso -, o que nos impede de considerar a possibilidade de que ele se retraia até às dimensões de um ponto de inimaginável concentração de energia, no qual mesmo o tempo deixaria de existir, e afinal esse ponto novamente exploda?). Em todo caso, devo reconhecer que, ante assunto tão elevado como esse que envolve Deus e a salada cósmica, melhor faríamos em nos contentar com a prossaica salada cuja autoria podemos de fato estabelecer, pois o mais, sobre ser inútil, será ocupação além do nosso alcance.
qWilmar Klein é jornalista e escritor em Curitiba.

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