São Paulo, 01 (AE) - Não vai dar para todo mundo, mas pelo menos mil felizardos vão poder ler uma nova aventura do mais fascinante caubói dos quadrinhos, Ken Parker. O Clube dos Quadrinhos e a produtora Art & Comics acabam de publicar uma edição especial numerada, em dois episódios, do herói criado em 1974 pelos italianos Giacancarlo Berardi e Ivo Milazzo.
"Onde Morrem os Titãs" é o nome da novíssima aventura de Ken Parker, com direito a investigações policiais secretas e questões de honra, fidelidade, paranormalidade e coragem. Pelo tratamento gráfico, dá para perceber que essa história - que tem copyright de 1999 - era para ser publicada em cores, com as magníficas aquarelas de Ivo Milazzo. Fica parecendo que o papel foi molhado. Mas paciência: é um legítimo Ken Parker e isso é suficiente.
Ken Parker é um cult absoluto dos anos 70, história que foi publicada no Brasil a partir de 1978, pela Editora Vecchi, e só durou 53 edições (hoje disputadas a tapas pelos colecionadores nos sebos). Depois, a Best News tentou revivê-lo, mas sua iniciativa só durou dois números.
Na Itália, os autores continuaram publicando as aventuras de Parker, que saíam na revista Comic Art, na própria revista da Parker Editore e na Sergio Bonelli Editore (a mesma do Tex). Convém lembrar que Ken Parker não tem nada a ver com o traço bizarro de Zagor, Tex ou de seus contemporâneos dos anos 70. É um legítimo western spaghetti, baseado na obra-prima de Sydney Pollack, Jeremiah Johnson (filme de 1972, com Robert Redford).
No Brasil, Ken Parker teve, entre seus inúmeros admiradores, "viciados" como o jornalista Marcos Faerman e o músico Arrigo Barnabé. A Vecchi começou publicando a história "Vingança!" e terminou com "Os Pioneiros". Berardi, um dos melhores argumentistas de quadrinhos de todos os tempos, baseia suas histórias na mitologia cultural dos americanos, entremeando as aventuras de Parker com jazz, blues, cinema, literatura.
Em "A História do General", o escritor faz uso da própria autobiografia do general Custer para recontar sua história, entremeando com outros livros que fizeram referência à saga do militar. Em "Histórias de Soldados", ele adapta para os quadrinhos contos do celebrado escritor americano Ambrose Bierce. Em "O Poeta", a referência são os poemas de Walt Whitman. Em "Milady", Shakespeare perpassa a aventura do choque entre barbárie e civilização.
Berardi consegue construir suas histórias na fronteira entre a citação e a criação, e nunca desanda para o pastiche. Milazzo é o gênio do traço (muito embora Ken Parker tenha sido feito também por outros desenhistas, como Castelli, Sclavi e Mantero). Mas é com Milazzo que ele chega ao seu ápice, no desenho simples, econômico, expressivo, um pouco também caricatural.
Milazzo, genovês de adoção (na verdade, nasceu em Tortona), conheceu o genovês legítimo Berardi no início dos anos 70. São grandes amigos até hoje e estrelas em qualquer convenção de quadrinhos que se preze.
A sinopse dessa nova aventura de Ken Parker: procurado por uma agência de investigadores por ter assassinado um policial durante uma manifestação, Parker emprega-se como lenhador numa madeireira, no povado de Rapid River. Usa o nome falso de Redford. Um ladrão estoura o cofre da madeireira e mata o vigia e Parker tem de investigar para se ver livre de uma nova acusação. No meio de tudo, um misterioso garoto com síndrome de Down.
Aqui, a história subjacente é a da vertiginosa exploração comercial da América do Norte, nos tempos dos pioneiros. Lenhadores morriam como formigas. Mas é impossível deter a marcha do progresso. Sorte nossa que Ken Parker insiste em sobreviver.

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