Ken Loach põe seleção brasileira no filme Meu Nome É Joe
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terça-feira, 14 de dezembro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 14(AE) - Pela diferença de horário, a entrevista teve de ser feita de madrugada, hora do Brasil. Às 8 horas (de Londres, três horas antes em São Paulo) Ken Loach já estava na sala de montagem, trabalhando na edição de seu novo filme, "Bread and Roses". Ele se desculpa dizendo que poderá conversar durante 30 minutos, não mais. "Senão, atraso o meu cronograma e tenho aqui o montador comigo." Só que, quando ele começa a falar, não pára mais. Fala durante quase uma hora. Discute o novo filme, o anterior ("Meu Nome É Joe), que foi exibido na Mostra Internacional de Cinema e deverá estrear no ano que vem, revisa os principais títulos de sua carreira.
"Meu Nome É Joe" não é um filme sobre futebol, adverte Loach. Ele usa um time de várzea para continuar falando sobre o seu tema preferido: a dificuldade de viver na sociedade inglesa pós-Margaret Thatcher. Loach nunca poupou críticas à Dama de Ferro. Não poupa também Tony Blair. "Ele pode exibir números um pouco melhores do que os de Thatcher, mas sua política social é um desastre; a social-democracia, travestida de neoliberalismo econômico, é uma praga."
Para o espectador brasileiro, "Meu Nome É Joe" ostenta uma característica toda especial. O time treinado por Peter Mullan dentro do filme usa as camisetas da seleção brasileira de 1970. Por quê? "Porque aquela é a seleção de sonho de qualquer apreciador de futebol", define Loach. Cita Pelé, o grande, mas evoca também Jairzinho, Rivelino, Tostão. "Não é possível gostar de futebol sem achar que aquela seleção foi um marco na história do esporte."
Antigamente a atitude clássica dos intelectuais, pelo menos no Brasil, era a de criticar o futebol como alienação das massas. Loach discorda. Autor sempre identificado com o político e o social, ele diz que se fosse fazer um filme sobre futebol escolheria os hooligans, os fanáticos torcedores ingleses. Preferiu tratar o assunto numa chave menor, mais intimista. Desempregado e ex-alcoólatra, o personagem de Peter Mullan (melhor ator em Cannes no ano passado) encontra um sentido para a vida ao treinar o time de várzea e apaixonar-se por uma assistente social.
"É uma história de amor sobre pessoas que vivem à margem", diz Loach. É o que o atrai: falar sobre personagens excluídos do bolo. É assim também no seu primeiro filme americano. Ele rodou "Bread and Roses" em Los Angeles, com produção de sua empresa, a Parallax. Mas o assunto, a ambientação, a pesquisa, é tudo americano. É um filme sobre hispânicos que vivem marginalizados em Los Angeles, cidade que Loach define como "violenta e impessoal." Ele quer estar com o filme pronto em janeiro. Por quê? Vai concorrer em Berlim em fevereiro? "Às vezes acho que os festivais vão parar comigo, devem estar cansados do meu estilo." Diz isso, mas no fundo não é verdade. Admite que, se o filme demorasse mais, talvez o segurasse para mostrar em Cannes 2000. "O Festival de Cannes tem sido genroso comigo", diz.


