KEN LOACH, O CINEASTA ANTI-GLOBAL
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de setembro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<BR>Especial para a Folha 2 
A classe operária não vai mais ao paraíso, contrariando o filme que outro comunista histórico, Elio Petri, fez aqui mesmo na Itália há 30 anos. Agora já não pode nem mesmo se permitir andar de trem. Está morta. Morte causada pelo trabalho descontínuo, pela falta de garantias sanitárias, pelo esfacelamento sindical. Depois do drama dos imigrantes mexicanos nos Estados Unidos, retratados ano passado em ''Bread and Roses'', o ''militante'' inglês Ken Loach volta à Inglaterra e com a ajuda do roteiro escrito por um ex-ferroviário, morto há pouco por um câncer causado pelo amianto, fez mais um de seus filmes de forte conotação social.
O argumento se fixa no primeiro momento da privatização das ferrovias inglesas, em 95, e o que isto representou para a classe ferroviária, sintetizada num grupo de amigos. ''The Navigators'' é a nova incursão de Loach à classe trabalhadora inglesa, frustrada pela política econômica de Margareth Tatcher e desencantada com o governo Tony Blair. Como sempre, o último diretor comunista em atividade também faz rir com a classe proletária. Afinal são pessoas com o senso de humor à flor da pele, ainda que um humor mais ríspido, às vezes até um tanto cruel. Mas são sempre justos e simpáticos, os operários de Loach. Nos bastidores, ''The Navigators'' colocou mais lenha na fogueira ideológica entre a esquerda que dirige (ainda) o Festival e a centro-direita de olho na condução do espetáculo. Cabeças devem rolar por aqui.
Lembrando de seus filmes é possível imaginar um homem duro e inflexível, um rebelde que se denuncia nos gestos, uma pessoa até um pouco ríspida, uma espécie de espelho fiel das histórias que conta no cinema. Mas Ken Loach desarma qualquer um com um sorriso pacato e ar tímido. É muito gentil, com movimentos delicados, como se fosse servir o chá das cinco, embora ainda sejam quase dez da manhã. Não fosse pelos olhos atentos atrás dos óculos fora de moda e poderia mesmo não ser ele, o Ken Loach sempre politicamente empenhado, franco e corajoso. Pela janela da grande sala de estar do Hotel des Bains, onde o cineasta recebe pequenos grupos de jornalistas, o céu carregado de Veneza antecipa o clima da conversa a seguir.
Como o senhor está vendo a globalização?
Apoio o movimento antiglobalização e todas suas demonstrações públicas. É um movimento que está crescendo e deve ser levado em conta. A força e a esperança para o futuro dependem desta resistência. Fiquei chocado com os fatos ocorridos em Gênova, e lamentei o apoio que Tony Blair deu ao governo italiano quanto à violenta repressão policial.
Como estão as privatizações na Inglaterra?
De 1995, ano em que está ambientado ''The Navigators'', até hoje, a situação vem piorando: estão privatizando tudo, escolas, serviços sociais, saúde...
''The Navigators'' fala de ''flexibilidade'', uma palavra que assusta os trabalhadores e que vem sendo mais e mais utilizada, principalmetne pelas agências de emprego.
É esta flexibilidade que está matando a especialização. Todos podem fazer qualquer trabalho, qualquer um pode substituir o outro. O resultado é o que se está vendo, principalmente nas ferrovias inglesas. As agências são convenientes para quem oferece trabalho, mas não para os trabalhadores, privados de suas principais certezas: férias, seguro-saúde, horários, tudo anulado. Estamos de volta à selva do século 19.
Em ''The Navigators'', o trabalho representa o grande drama da vida de hoje. Há alguma possibilidade de resolução do problema?
São as circunstâncias econômicas nas quais se vive que movem as pessoas e que fazem explodir os conflitos. O que pode ajudar a combater o problema é a raiva. Se você fica com raiva diante do que vê no filme, a esperança está nesta sua raiva. Porque no final você vai perguntar: é tolerável, é justo tudo isso?
Seu filme fala também de relações humanas, entre os trabalhadores, e de relações amorosas. Os casais estão em crise?
É verdade, mas em certos momentos são também divertidos. Digamos que com eles a palavra de ordem também é...flexibilidade (risos). Meu filme não é apenas um drama social, há ainda outros temas como amor e morte.
O senhor pretende voltar ao assunto trabalho no futuro?
A propósito, sim, imeditamente, com filmagens na Escócia. Os personagens são dois menores, empregados num supermercado. Recebem duas libras por hora, o que por lei é inferior ao salário mínimo atual. Os rapazes trabalham e os pais não têm emprego.


