Katy Jurado levou o México a Hollywood
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sexta-feira, 12 de julho de 2002
Luiz Carlos Merten<br> Agência Estado 
Ela recebeu, em 1952, o Oscar do cinema mexicano, o Ariel, por sua participação no filme de Luis BuÀuel, ''El Bruto''. Dois anos mais tarde, Katy Jurado também foi indicada para o Oscar de Hollywood, na categoria de atriz coadjuvante, por sua criação no western de Edward Dmytryk, ''A Lança Partida''. Tudo isso foi lembrado há uma semana, quando os jornais começaram a publicar os obituários da atriz que morreu em sua casa, em Cuernavaca, de insuficiência cardíaca. Tinha 78 anos. Um porta-voz do Sindicato de Atores do México disse que ela plantou a bandeira mexicana em Hollywood ''e fez com que nos sentíssemos muito orgulhosos de suas atuações''.
Katy Jurado não possuía a regularidade de traços de outra famosa diva mexicana, Maria Felix, que também morreu este ano. Maria chegou a ser considerada, em certa época, a mulher mais bela do mundo. O rosto de Katy não tinha aquela harmonia toda, ela era mais abrutalhada, mas foi também uma bela mulher - com o temperamento de um tigre, como a definiu certa vez o ator americano Ernest Borgnine, com quem foi casada. É curioso que essas mexicanas tivessem o pavio curto e usassem a faca na bota. Numa sociedade controlada pelos homens, só mulheres especiais, ou que sabem manipular esses homens, conseguem abrir seu espaço. Maria Felix estrelou um filme chamado ''La Diosa Arrodillada'' (A Deusa Ajoelhada), mas era mais fácil os homens ajoelharem-se a seus pés do que a deusa aos pés deles.
Nascida Maria Cristina Jurado García em Guadalajara, em janeiro de 1924, Katy nunca escondeu que teve uma infância e uma adolescência difíceis. Casou com o escritor Victor Velázquez e também não foi muito feliz. Estava disposta a fazer qualquer coisa para fugir à opressão da vida familiar. O que surgiu foi o cinema. Estreou em 1943, num filme chamado ''No Matarás'', sob a direção de Chano Urueta. Seguiram-se vários filmes dirigidos por Alejandro Galindo e Ismael Rodriguez, diretores pouco conhecidos no País. Os dicionários de cineastas de Jean Tulard e Rubens Ewald Filho (a nova edição) praticamente omitem os diretores da América espanhola e o livro de entrevistas de Maria do Rosário Caetano, a única obra brasileira de referência sobre cineastas latinos, adota o partido da autora, que é o de filtrar seu olhar sobre o cinema da América Latina pelo Festival de Havana. Nomes fundamentais terminam ficando de fora. A carreira mexicana de Katy culmina com El Bruto, mesmo que a história do açougueiro que termina vítima de suas paixões primitivas não represente o melhor BuÀuel. O próprio autor não tinha muito apreço pelo filme. Dizia que o roteiro, dele e de Luis Alcoriza, tinha muitas idéias que tiveram de ser abandonadas por pressão dos produtores, interessados apenas num melodrama à base do conflito entre pai e filho. Pedro Armendáriz faz o bruto induzido ao assassinato pelo dono do açougue no qual trabalha. Ele descobre que o homem que o manipulou é seu pai e também o mata. Passa a ser perseguido pela polícia e isso termina sendo bom para ele, porque pela primeira vez consegue identificar com clareza quem são seus inimigos.
BuÀuel filtra o melodrama mexicano pelo surrealismo e pelo neo-realismo. É evidente, em El Bruto, a influência de ''Arroz Amargo'', o filme do italiano Giuseppe De Santis que lançou o mito de Silvana Mangano. BuÀuel também erotiza seu relato, principalmente por meio da personagem de Katy, que faz a amante de Armendáriz. Em Hollywood, ela atuou ao lado dos maiores mitos masculinos do cinema: Gary Cooper, John Wayne, Marlon Brando, Spencer Tracy, Clark Gable e Burt Lancaster. Trabalhou principalmente em westerns: além do de Dmytryk, teve papéis importantes em ''Matar ou Morrer'', de Fred Zinnemann, e ''A Face Oculta'', de Marlon Brando. Mas Katy também marcou presença na superprodução ''Barrabás'', de Richard Fleischer, e no filme, edulcorado mas digno, que John Huston adaptou do romance cult de Malcolm Lowry, ''A Sombra do Vulcão''. Para interpretar a antiodisséia do cônsul Firmin no ''Dia dos Mortos'', Katy não precisou sair de casa. O filme, como o livro, passa-se em Cuernavaca, onde morava.


