Katrin Cartlidge destrói clichês
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quinta-feira, 09 de dezembro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 09 (AE) - Se o Oscar fosse honesto, Fernanda Montenegro teria sido a melhor atriz do ano, vencendo Gwyneth Paltrow. Mas se o prêmio da Academia de Hollywood realmente se pautasse pela qualidade Katrin Cartlidge teria, pelo menos, sido indicado por seu papel em "Claire Dolan, de Lodge Kerrigan, que estréia amanhã (10). Katrin ri ao telefone ao ouvir a afirmação do repórter. Diz que já está conquistada e que a entrevista vai fluir, com certeza.
Katrin está longe de ser uma desconhecida. Apareceu nos filmes de Milcho Manchevski "Antes da Chuva" e "Nu" (Naked), de Mike Leigh. Mas seu grande momento no cinema é "Claire Dolan". Ela concorda. É uma da tarde em Londres, mas Katrin adia por alguns minutos o seu almoço para conversar com a reportagem. Conta que há alguns anos, "por motivos pessoais", estava em Nova York quando assistiu ao filme de Lodge Kerrigan "Limpeza (Clean Shaven). Ficou impressionada e moveu céus e terra para conhecê-lo. Felizmente ambos tinham um amigo comum e ela teve acesso ao diretor, que lhe pareceu, desde que viu o filme, um dos mais instigantes do cinema independente americano.
Ela lhe disse francamente que, se algum dia Kerrigan tivesse um projeto que achasse que poderia interessar-lhe, estaria à disposição. Não demorou muito e ele lhe enviou o roteiro de "Claire Dolan".. Não era bem uma proposta, queria uma avaliação. Katrin leu e ficou fascinada. "A escrita do filme era de primeira, mas o que mais me seduziu foi a maneira pela qual aquele homem tinha sensibilidade para falar sobre uma mulher, desmontando todos os clichês que o cinema geralmente atribui à prostituta."
Em geral, ela tem um bom coração ou então é uma peste, imersa nos piores vícios. "Kerrigan criou uma prostituta que não roda sua bolsa na rua, frequenta ambientes fechados de alto luxo, tem o seu apartamento, mas sofre o dilema de muitas mulheres e não apenas prostitutas, de ter de ir para a cama com um homem, satisfazendo as fantasias de outro sem possuir nenhum envolvimento." Ou seja: sexo sem amor. Claire tenta exercer controle sobre sua vida, mas está nas mãos do gigolô. Encontra um homem por quem se apaixona, mas ele é fraco e, além disso, quer possuí-la. "É uma personagem muito rica e complexa", define Katrin.
Sensibilidade européia - Não sabe, sinceramente, se Kerrigan foi influenciado por Jean-Luc Godard, que dividiu a história de uma prostituta em quadros, realizando com "Viver a Vida" um de seus melhores filmes nos anos 60. "Não sei, acho que não, conversávamos tanto sobre cinema; em caso afirmativo ele teria me contado, com certeza." Mas Kerrigan sempre destacou sua ligação com o cinema francês pós-nouvelle vague. Katrin diz que ele lhe falava muito de certos filmes franceses. "Queria atingir uma emoção particular, sem ser piegas, que achava que muitos diretores franceses dos anos 60 tinham."
Quando aceitou o papel, Katrin foi morar em Nova York. Chegou quase um mês antes da rodagem. Discutiu exaustivamente cada frase do diálogo com Kerrigan, cada cena. "Já que se trata de um filme de poucas palavras, elas têm uma função precisa da qual eu queria estar absolutamente certa." Em Nova York, Katrin foi morar num bairro afastado e não muito residencial. Sentia-se isolada. Acha que foi positivo. "Aproximou-me mais de Claire, fez-me sentir sua solidão."
Considera difícil avaliar o que lhe custou mais: se dar credibilidade às cenas de sexo, que, sem ser explícitas, são intensas, ou expressar os sentimentos de Claire. "É uma mulher que vive mais para o exterior; o filme é uma sucessão de gestos, como se a vida fosse um teatro."
Justamente, o teatro. Katrin alterna a atividade no cinema com montagens teatrais. Integra um grupo de vanguarda, o Théâtre de Complicité (assim mesmo, em francês). Atualmente participa de uma peça chamada "Amnemonic", que trata da memória. Quem for a Londres e quiser vê-la no teatro não vai conseguir. "Estamos com ingressos vendidos até fevereiro", anuncia.
Diz que o Théâtre de Complicité reúne artistas de diversas nacionalidades. "A proposta é esta: uma interação entre artistas depositários de diversas culturas que estabelecem uma cumplicidade no palco." O gênio por trás dessa proposta é um homem chamado Sameon McBurney. "Absolutamente brilhante", diz Katrin.
De volta ao assunto cinema, a atriz acrescenta que Kerrigan é um diretor "de sensibilidade européia", mas não vê possibilidade de compará-lo com o inglês Mike Leigh. "Kerrigan tem um roteiro muito definido, do qual não se afasta", conta. "Leigh prescinde do roteiro ao iniciar um projeto."
O autor de "Verdades e Mentiras" reúne os atores, desafia-os a criar certos personagens e, a partir daí, da interação entre atores e personagens, vai montando a linha de sua história. "É um processo muito orgânico", define Katrin.
Qual dos dois métodos é melhor? "Ambos são válidos", responde. Também não poupa elogios a Milcho Manchevski. "Ele possui uma extraordinária imaginação visual, Antes da Chuva" é a prova." Acrescenta que Manchevski foi montador antes de ser cineasta. "Consegue maravilhas na sala de montagem", diz.


