São Paulo - Quando há alguns anos o produtor Rodrigo Teixeira convidou Karim Aïnouz para dirigir um filme inspirado nas canções de Chico Buarque, o diretor não teve dúvidas: "Olhos nos Olhos". "Porque é a música do Chico que mais me toca, que me emociona, que mais ouvi quando me separei tantas vezes na vida", explica o diretor.
É exatamente a emoção e a separação que dão o tom a "Abismo Prateado", longa cuja première mundial aconteceu na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2011.
Com roteiro de Aïnouz e de Beatriz Bracher (de "Os Inquilinos"), o filme conta um dia na vida da dentista Violeta (Alessandra Negrini), de 40 anos, que, logo após se mudar para um apartamento em Copacabana, com seu filho adolescente e seu marido (vivido por Otto Jr.), vê sua rotina se revolucionar após descobrir, por meio de uma mensagem deixada no celular, que o marido a deixou. É a longa jornada dia e noite adentro desta mulher, que acaba de despencar no abismo do desamor e do abandono, de que trata "Abismo Prateado".
Para Negrini, este foi um filme difícil, uma vez que a ação está em cima da Violeta o tempo todo. "É ela, sozinha, agindo e reagindo em meio à cidade, quando o abismo se abre, quando o tempo para e ela, diante disso, tem de lidar com a dor e o desamparo. Foi um filme tão difícil, ou até mais, de se preparar do que de filmar", comentou a atriz sobre seu processo de filmagens e de preparação para viver Violeta.
Para Aïnouz, este era um filme em que, "por não ter muita história, destramado", a canção, e o tom, era crucial para conduzir a narrativa. "Eu queria que este fosse um filme desabusadamente romântico. Foi Olhos nos Olhos que permeou sempre o trabalho", comenta o diretor. "Há outras músicas do Chico que são lindas, mas que são mais narrativas, mais prosa. Esta canção tem algo de bonito, é mais poesia. Quem é você? Quem é meu bem? Mesmo por tocar meu ponto nevrálgico, é uma canção que me permitia imaginar mais. Quem é esta mulher que canta 'quando você me deixou, meu bem?' Qual o nome dela?"
Após longas premiados como "Madame Satã" e "O Céu de Sueli", Aïnouz conta que desta vez quis fazer um cinema que não fosse tão calcado em momentos de ação e roteiro. "Talvez seja meu filme mais irregular, em que a mise-en-scène está muito mais próxima da pulsação da Violeta que de um preciosismo de enquadramentos. Este é um filme de sensações, que, não por acaso, as mulheres naturalmente sentem mais forte. Não sei como os homens processam o abandono, mas a dor do desamparo é algo humano. E é fisiológico. Dói mesmo", comenta o diretor, que teve com um dos grandes desafios representar, por meio das imagens, este nervo exposto que a dor deixou em Violeta.
Para Aïnouz, a beleza da jornada desta mulher também tem momentos de sensualidade. É nos planos e enquadramentos não óbvios escolhidos pelo diretor, nas imagens que transmitem muito mais sensações que fatos, que se traduz também a dor de Violeta. Nesta jornada, abre-se espaço até mesmo para momentos de sensualidade. "Quando, no meio da noite, Violeta conhece o cara da van e há uma energia que circula entre os dois, são os detalhes, aquilo que não é dito, os responsáveis por transmitir o que estão sentindo. Os pequenos gestos são sensuais. Gosto de deixar as coisas em aberto. Nunca perdendo o tom de que há, ainda que de forma muito leve, uma relação romântica entre eles."

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