Kapenga lança ''Outras Paisagens''
Pouca gente ouviu falar, mas o Vozes e Viola era um grupo que se encontrava eventualmente e reunia talentos que se tornaram grandes nomes da música brasileira. Composto por Zé Gomes, Almir Satter, Passoca, Papete, Kapenga e Gereba, o Vozes foi se apresentar, durante a década de 80, em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo.
Lá, o grupo abriu o show de Pena Branca e Xavantinho. A dupla gostou da sonoridade e convidou o Vozes e Viola para uma apresentação lado a lado. Sem ensaio, os músicos tocaram pela afinidade. Foi aí que surgiu a amizade entre Kapenga e Pena Branca e Xavantinho. Desde então, o músico passou a acompanhar a dupla. O trio se apresentou recentemente em Londrina.
Com anos de shows, arranjos e estúdio na bagagem, Kapenga Ventura é um músico que já tocou até com Jackson do Pandeiro. Sua carreira inclui gravações com Moraes Moreira, Caetano Veloso e Walter Smeták. O início foi na década de 60, em Serrinha, interior da Bahia, onde nasceu. Mas só agora um antigo sonho foi concretizado. Kapenga Ventura está lançando Outras Palavras, o primeiro trabalho solo, após anos de preparação.
O disco saiu pela Paradoxx e ainda não teve um lançamento oficial. Com paciência, Ventura divulga seu trabalho na base da conversa, sempre que consegue tempo.
O álbum é fruto de uma longa gestação. Kapenga Ventura tem mais de cem músicas compostas, mas escolheu as que considera amadurecidas para gravar. O compositor organizou um repertório que foge a tendências comerciais e sintetiza os rumos que trilhou durante todos esses anos.
A mistura de ritmos é antiga. Kapenga Ventura toca desde os 14 anos, quando integrava um conjunto de baile. Em 1970, já em Salvador, formou com Gereba o Bendegó, grupo de originalidade rítmica que chamou a atenção de público e crítica.
O Bendegó surgiu de nossa busca pela profissionalização. Aí o Roberto Menescal nos descobriu e a gravação do primeiro disco veio rápido, comenta Ventura. De Salvador, o Bendegó seguiu para Belo Horizonte, onde se tornou conhecido.
Paralelamente eu prestava serviço para outros artistas, tocando baixo, bandolim, balalaica - instrumento russo - e violão. Em 1975 trabalhamos com o Caetano Veloso em Canto do Povo de um Lugar e fizemos a turnê de lançamento com ele. Também toquei com Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Gilberto Gil, Jards Macalé e outros, acrescenta.
Com o final do Bendegó, em 85, Kapenga começou a pensar em um disco solo: Tive muita calma e quando achei que estava maduro, produzi e banquei os custos para depois procurar uma gravadora. Minha preocupação era fazer um som que não envelhecesse. O álbum mesclou cordas e teclados, com auxílio de Luís Lopes nos arranjos.
Ainda não há divulgação, o disco é recém-lançado, a primeira entrevista que estou fazendo é esta. É bacana porque nunca deixei de vir a Londrina, sempre estou por aqui e não perdi o contato com a cidade, ressalta.
Outras Paisagens traz uma verdadeira salada musical, sem perder linearidade. Não há saltos na organização das faixas, tudo é costurado com qualidade por Kapenga, que se responsabilizou ainda pelos vocais. No repertório, há uma série de parcerias: Milhas foi composta com Renato Teixeira; Outras Paisagens com Zeca Bahia e Capinam; e Você Pode Voar foi feita em 1971 com Luís Melodia.
As músicas trazem levadas que vão do reggae ao caipira, abrindo espaço até para sonoridades orientais. Mas o amálgama de Kapenga não é distinguível, não há limites claros de onde começa ou termina cada estilo. Tudo é bem misturado, sem exageros.
Escolhi as músicas que mais gosto e têm contraste com experiências que tive. Tudo isso foi criterioso, com muita calma, tenho tendência a fugir do óbvio, assegura, mirando quem se entrega à música comercial: O artista deve se conscientizar de que é ele quem tem que dar as cartas para não ser devorado. Vender ou não vender é outra coisa, depende da qualidade do produto. Por enquanto, o músico ainda não agendou nenhum show para o lançamento de Outras Paisagens. O disco tem distribuição nacional.Dorico da SilvaKapenga Ventura (na foto, com Pena Branca e Xavantinho): mais de cem músicas compostasRanulfo Pedreiro





