Kaingang também é ensinado em Londrina
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terça-feira, 08 de março de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Com o objetivo de colaborar na preservação da cultura indígena e elaborar um material, ainda inédito no Brasil, que facilite o ensino e aprendizagem da língua kaingang, está sendo desenvolvido, desde 2003, na Reserva do Apucaraninha, em Tamarana (62 km ao sul de Londrina), o projeto de pesquisa ''Gramática Pedagógica para a Língua Kaingang''. Financiado pela Fundação Araucária, o projeto é coordenado pelo linguista Ludoviko dos Santos que também é professor do curso de Letras da Universidade Estadual de Londrina (UEL) , com o apoio de três alunas estagiárias e, mais recentemente, o estagiário Manoel N.M. Felisbino, professor indígena bilíngue, recém-aprovado no vestibular de Letras da instituição.
''O nosso trabalho é voltado para os professores índios e não índios que trabalham na aldeia dando aulas para crianças de 1 à 4 série. A alfabetização das crianças indígenas deve sempre ser em kaingang, em respeito à cultura deles, para depois aprenderem o português como segunda língua, como nós aprenderíamos uma língua estrangeira'', comentou o professor.
Na pesquisa de coleta de dados, os professores índios são a principal fonte de informações sobre a língua que até a década de 60 estava embasada somente no registro oral. Já os professores não índios que trabalham na aldeia dando aulas de português fornecem os pontos de estranhamento entre o kaingang e o português, que servem de subsídio para a elaboração da metodologia pedagógica. Uma das diferenças está no plural das palavras. Em português, o plural é dado com a letra ''s'' ligada às palavras. No kaingang, o plural é expresso com a partícula ''ag'' no final da palavra.
''A gramática que estamos organizando serve de ferramenta para o professor, por exemplo, que vai ensinar português, perceber didaticamente as diferenças entre as duas línguas e elaborar exercícios que facilitem ao aluno essa percepção e otimizem seu aprendizado'', ressaltou.
Formado em Letras pela PUC de Curitiba, Santos chegou em Londrina em 1981. Um ano antes, participou de um curso em Brasília sobre a descrição de línguas indígenas. Empolgado com o tema, passou a se dedicar sobre a sua pesquisa. Em 1986, também participou de diversos projetos da UEL voltados para a cultura indígena sob a coordenação da professora Kimiye Tomasino.
Pertencente à família Gê (que define uma linhagem de línguas indígenas estruturadas de maneira semelhante), além do kaingang, há cerca de 27 línguas no Brasil da mesma origem. Hoje, aproximadamente dez mil indígenas falam o kaingang no Paraná, que também é praticada em comunidades indígenas de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
A luta pelo reconhecimento da diferença da cultura índígena não é recente, mas foi depois da Constituição de 1988 que os direitos indígenas, como ser alfabetizado na língua nativa, foi oficialmente reconhecido. O projeto prevê até o final do ano uma edição bilíngue da gramática. ''É um pontapé inicial importante para um assunto que ainda não tem referências bibliográficas no Brasil. Se você pensar que o português é uma língua que é estudada há cerca de 500 anos, dá para imaginar o tamanho do desafio em elaborar uma gramática kaingang'', destacou Santos.


