Curitiba - O recurso da Editora Rocco para impedir a apreensão do livro ''Canto dos Malditos'', do escritor paranaense Austregésilo Carrano Bueno, pela Justiça, não teve efeito. Em decisão judicial inédita no Estado, o desembargador do Tribunal de Justiça, Vidal Coelho, confirmou anteontem a apreensão de todos os exemplares da atual edição do livro. A medida vale até que o juízo de primeiro grau analise o mérito da questão, ainda sem data definida. Informado pela reportagem da Folha, o advogado da editora Pedro Henrique de Miranda Rosa, disse que a empresa ainda não foi notificada oficialmente da decisão.
De acordo com o advogado, mesmo depois da editora ser informada pode demorar algum tempo até que a medida judicial tenha efeito. ''A decisão ainda precisa ser publicada e a Justiça ainda não definiu um prazo para que os livros sejam realmente retirados da prateleira'', disse. O advogado explica que essa não será uma decisão da editora. ''As livrarias devem comunicar se ainda tem estoque do livro'', disse complementando que, nesse caso a Rocco vai devolver o dinheiro dos exemplares restantes.
''Canto dos Malditos'' está em sua nona edição (sétima pela Editora Rocco). Foi publicado pela primeira há 12 anos, numa tímida edição da Universidade Federal do Paraná (UFPR), na época sem muito alarde. Em uma narrativa autobiográfica, o livro conta a trajetória de Carrano quando ele, ainda adolescente, foi internado pelo pai num hospital psiquiátrico. O motivo foi um cigarro de maconha encontrado nas coisas do garoto.
A história da internação e um tratamento questionável a que Carrano foi submetido, com direito a choques elétricos, camisa de força e isolamento, foi contada no filme ''O Bicho de Sete Cabeças'', de Lais Bodanzki, com Rodrigo Santoro no elenco. O filme não teve tantos problemas como o livro que o inspirou e ganhou mais de 30 prêmios nacionais e oito internacionais.
No ano passado, depois do lançamento nacional do filme, a família do médico Alô Guimarães, citado no livro de Carrano entrou na Justiça pedindo o recolhimento de todos os exemplares das livrarias. Segundo os autos, Austregésilo Carrano Bueno teria ofendido a honra do médico Alô Guimarães, que já morreu, ao citá-lo como responsável pelo tratamento do autor enquanto esteve internado.
A decisão foi tomada em 30 de abril pela 1 Câmara Cível do Tribunal de Justiça, atendendo a ação de Ilka Maria Guimarães Paolini e Luiz Cláudio Surugi Guimarães, herdeiros do médico citado. Guimarães era diretor do Hospital Psiquiátrico Bom Retiro, onde o autor foi internado.
A medida no entanto, não foi cumprida porque a Editora Rocco entrou com recurso alegando que os advogados da editora não foram citados nos autos, agravo negado anteontem. O advogado da Rocco disse que vai aguardar a notificação para avaliar se cabe ou não outro recurso na Justiça.
Na Livraria do Chaim, em Curitiba, o livro está esgotado e o livreiro Aramis Chain aguarda o trâmite judicial para pedir novos exemplares. ''Tenho interesse em pedir porque o livro está sendo bem procurado'', disse. No entanto, ele revela que a procura foi maior depois que a obra foi proibida judicialmente.
Já Carrano disse que a decisão é uma ''arbitrariedade'' e promete para hoje um protesto em frente ao Hospital Psiquiátrico Bom Retiro, em Curitiba. ''Não confio mais na Justiça, esse é um ato de ditadura'', acredita.

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