Justiça das ruas
DivulgaçãoCena de Sleepers, filme propositalmente ambiguoO subtítulo brasileiro dado a Sleepers (A Vingança Adormecida) já antecipa ao espectador, sem maiores sutilezas, a medida dramática do filme escrito e dirigido por Barry Levinson, já nas locadoras. Baseado na novela autobiográfica do jornalista americano Lorenzo Carcaterra, já lançada no Brasil pela Record, é a história real da infância do autor e de outros três amigos no bairro nova-iorquino de Hellss Kitchen, não exatamente famoso pelas boas maneiras de seus habitantes.
Apesar das melhores intenções infantis, o quarteto acaba tropeçando na marginalidade. Os garotos são encaminhados para um reformatório, e lá sofrem privações, maus tratos e violações de toda espécie, físicas e psicológicas. As sequelas desse tempo de brutalidade afloram na idade adulta. Embora dispersos pela vida, os atormentados personagens acabam tramando uma retaliação.
Acusado de escrever inverdade e exageros, o jornalista Carcaterra diz que sua história não é o retrato de uma época. Segundo ele, o livro fala sobre vítimas de um sistema cada vez mais viciado. E são exatamente essas vítimas que logo se transformam em algozes. Brad Pitt é o advogado atormentado pelo passado e responsável pelo plano de vingança. Jason Patric é o próprio Carcaterra, narrador-prisioneiro do pesadelo que foi aquele período de dor e humilhação no reformatório. Kevin Bacon aparece como um guarda sádico. Duas outras vítimas daquela fase de horror, vividos por Billy Cudrup e Ron Elderman, também estão a um passo da criminalidade.
Ambiguidade Diretor de projetos pessoais e ambiciosos pouco estimados pelo grande público (Diner, Avalon, A Revolta dos Brinquedos) e de sólidos sucessos comerciais (Rain Man, Bom Dia Vietnã e Assédio Sexual), Barry Levinson diz que fez Sleepers propositalmente ambiguo, e que isto em sua narrativa é uma virtude. Acho que não se deve dar respostas claras, isto seria muito ruim. O filme procura olhar o problema por dentro e fazer quem está fora, o espectador, refletir sobre isso. Além de atores mais novos (Pitt, Patrick, o menino Brad Henfro), Sleepers tem seus monstros sagrados. É bem verdade que o tempo de permanência em cena não é muito, e só mesmo na segunda metade do filme, mas o bastante para justificar as respectivas famas. Robert De Niro é o padre Bobby, ex-marginal de rua que tenta a todo custo evitar que garotos façam bobagem. Dustin Hoffman é o advogado mergulhado em fracassos e no álcool, pronto para ajudar os vingadores contra os guardas. E finalmente o maior de todos, Vittorio Gassman, como o chefão mafioso em Hells Kitchen às voltas com a garotada.
O que se pode cobrar de Levinson é uma certa desconexão emocional. A partir do planejamento, até chegar à execução, o diretor se mostra apenas eficiente na organização do elenco e na condução da narrativa. Longe de ser o filme excepcional que muitos esperavam, Sleepers também não compromete. É apenas um filme razoável.





