São Paulo - A voz de Jorge Du Peixe, atual vocalista do Nação Zumbi, é grave. Em nada lembra a mais aguda e esganiçada de Jorge Ben Jor. O mangue beat e o maracatu disseminados pela banda recifense também diferem, e muito, do samba rock e pop do cantor carioca. O universo de referências de uma banda, porém, é vasto. E dentro desse enorme leque de possibilidades, há espaço para o carioca entre o gosto dos pernambucanos.
Ben Jor é, aliás, o grande consenso entre os membros do Nação. O gosto em comum, o ponto de união musical. Não por acaso, vez ou outra, nos ensaios, o guitarrista Lúcio Maia tirava ''O Telefone Tocou Novamente'', enquanto Pupillo tamborilava na bateria e Dengue caprichava no baixo. Em 2000 -três anos após a morte de Chico Science -, a brincadeira de tocar o samba rock de Ben Jor foi levada para o palco. ''Ainda morávamos no Recife'', lembra o baixista Alexandre Costa, mais conhecido como Dengue, hoje com 38 anos. ''Tínhamos muito tempo livre e precisávamos de mais dinheiro. Acho que fomos os primeiros a fazer isso, uma banda de homenagem''. E assim surgiu o Los Sebosos Postizos, há 11 anos. ''Todos nós adoramos as músicas do Ben Jor. Daí, resolvemos fazer uma homenagem a ele'', conta.
O trabalho dos rapazes do Nação Zumbi na banda Los Sebosos Postizos não é algo único no cenário musical. Outras bandas, como Mombojó e Vanguart, também têm projetos paralelos, nos quais homenageiam artistas que admiram. No caso do pessoal do Nação, criar o Los Sebosos abriu a cabeça. Hoje, eles têm projetos paralelos, com outras bandas, se tornaram músicos de estúdio e fizeram composições de trilhas sonoras. Lúcio Maia e Pupillo integravam a banda Seu Jorge e Almaz e chamaram, mês passado, Dengue para fazer o baixo no lugar do produtor Antônio Pinto. Já o 3namassa é formado apenas pelo baterista e pelo baixista do Nação. ''De uma forma ou de outra, percebemos que poderíamos trabalhar mais como músicos solo, não apenas no Nação'', destaca Dengue.
Los Sebosos Postizos, porém, não é uma banda de cover. É, sim, uma união de amigos prestando uma homenagem. E nela, não é necessário que as melodias originais sejam seguidas à risca. A essência de Ben Jor está lá, sim. Mas a alegria de cantar e o som animado foram trocados por algo mais tenebroso, sombrio ou ''soturno'', como eles mesmos gostam de classificar.
Vídeos dos shows de Los Sebosos circularam pela internet e chegaram até o DJ e produtor Gabriel Ben Menezes, cujo sobrenome entrega a conexão com Jorge - ele é filho do cantor. ''O Gabriel ligou e disse que havia mostrado as nossas músicas para o pai, que tinha aprovado. Poderíamos gravar um disco'', relembra Dengue. O álbum, ''Uma Noite de Ben'', foi gravado há um ano, produzido por Mario Caldato, mas a banda não encontrou nenhum selo interessado em distribuir o trabalho. ''São canções antigas, né? Quem se interessa em vender isso?''. O disco deve sair em junho ou julho, com divulgação independente.
Rei Roberto
Também vindos do Recife, os integrantes do Mombojó são uma geração depois daquela precursora do mangue beat. Enquanto Dengue e companhia beiram os 40 anos, Felipe S., Marcelo e Vicente Machado, Chiquinho, Samuel nem chegaram aos 30 - o mais velho, Felipe, tem 28. Vendo o projeto de Los Sebosos Postizos, os cinco amigos, em companhia de China (ex-vocalista do Sheik Tosado), 31 anos, criaram o Del Rey, numa homenagem ao iê-iê-iê de Roberto e Erasmo Carlos. E a primeira apresentação não poderia ser mais inusitada: na festa de bodas de ouro dos sogros de China, em 2004. ''Também fazemos muitos casamentos. Já casamos mais gente que muito padre'', brinca o vocalista, que estima já ter tocado em mais de cem celebrações matrimoniais. Já o número de ensaios não passou de 30, em sete anos de banda. ''É algo que ouvimos desde criança. Fica fácil'', completa.
Falando em referências da infância, os Beatles são citados por dez entre dez bandas. As bandas covers do quarteto inglês estão por todo lado, em todo o mundo. ''Beatles sempre foi uma unanimidade na banda'', explica Reginaldo Lincoln, baixista do Vanguart. Helio Flanders, o vocalista, nem se lembra direito de quantos anos tinha quando acordava, aos domingos, com o pai ouvindo o vinil ''Help!'', de 1965. ''Eu devia ter uns 6 ou 8 anos'', conta.
O The Mockers é formado por Régis Damasceno (guitarra), Rian Batista (baixo) e Clayton Martin (bateria). Eles não conseguem repetir a mesma complexidade sonora de Lennon e McCartney. Nem querem. ''Fazemos do nosso jeito'', diz Régis. Afinal, não é cover. É uma (justa) homenagem.

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