Agência Estado

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Ênio Silveira apresentou ao Brasil as obras de Marx, Gramsci, Joyce e HemingwayNo último dia 11 fez dois anos da morte do editor Ênio Silveira e para homenageá-lo a Editora Civilização Brasileira lança, este mês, ‘‘Ênio Silveira: Arquiteto de Liberdades’’, organizado por seu maior amigo, Moacyr Félix. São depoimentos de colegas e parentes e escritos, manifestos e discursos do próprio Silveira, o retrato de um dos mais combativos e corajosos editores do País. Socialista assumido, foi responsável pela apresentação ao Brasil de obras de Marx (como a primeira versão de ‘‘O Capital’’), Gramsci, Issac Deutscher, Raymond Aron, mas também de romancistas como Joyce, Hemingway, Huxley, Scott Fitzgerald e dos brasileiros Cony, Millôr e Sabino.
‘‘As publicações de Silveira, na editora ou na Revista Civilização Brasileira, marcaram os anos 60 e 70 como um dos mais importantes períodos de nossa história cultural’’, avalia Félix. Mas ele pagou caro pela ousadia. Durante a ditadura, foi preso sete vezes pelos militares (numa delas, escreveu um diário fascinante do seu cotidiano no Batalhão da Polícia do Exército, no Rio), foi envolvido em quatro processos criminais pela ‘‘edição de obras subversivas’’ e enfrentou uma auditoria militar por lançar ‘‘Fundamentos de Filosofia’’, de Afanasiev.
Censura‘‘Ele foi muito comprometido com a resistência ao golpe de 64, mesmo que, por causa disso, a editora sofresse muitos prejuízos com atentados e a censura de edições inteiras’’, lembra Félix. ‘‘Mas Ênio Silveira era de uma sinceridade e coerência a toda prova: sempre se disse comunista e repetia isso para quem quer que fosse, de amigos a militares, passando por suas amantes’’, completa. No entanto, nunca foi um marxista dogmático e não colocou sua prensa a serviço de qualquer partido político.
‘‘Um dia, o Luís Carlos Prestes disse para ele que o partido finalmente tinha uma editora e o Ênio reagiu na hora: ‘Não tem não, porque eu não publico texto sem qualidade só porque é de comunista’’’, conta Moacyr Félix. Seu único comprometimento era com o público, de quem quis tirar a preguiça da leitura descompromissada. ‘‘Foram os livros da Civilização que introduziram no País o hábito da leitura de obras de pensamento: livros de economia, filosofia, história, textos que defendiam o verbo ser contra o verbo ter’’.
O que, se lhe causou aborrecimentos com as autoridades, lhe rendeu elogios de grandes mestres. ‘‘Quando Sartre esteve no Brasil, ficou impressionado com a tiragem dos livros e da revista da Civilização, cujos artigos traziam a assinatura das melhores cabeças pensantes da época’’, recorda Félix. E também lhe garantiu a amizade de acadêmicos que, mais tarde, chegariam à Presidência da República. ‘‘Ênio Silveira era amigo de tomar uísque com o Fernando Henrique, sem que, no entanto, deixasse de criticar muitas de suas atitudes políticas, com as quais não concordava’’.
PaixãoNascido em São Paulo, em novembro de 1925, Ênio Silveira estudou sociologia na Universidade de São Paulo e na Universidade de Colúmbia, onde também cursou disciplinas de editoração, retomando uma paixão adquirida na juventude. Filho de intelectuais, encontrou-se, aos 18 anos, com Monteiro Lobato que, impressionado com o rapaz, convidou-o para entrar na Companhia Editora Nacional, de Octalles Marcondes Ferreira. Nos EUA, estagiou na poderosa Alfred A. Knopf e, ao voltar para o Brasil, o acaso colocou-lhe uma editora nas mãos.
Casado com Cléo Marcondes, filha de Octalles, Silveira foi comprando ações de parentes e, em breve, estava à frente da Companhia Editora. Em 1952, foi eleito como presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros e transformou-se num dos mais respeitados profissionais do ramo. Acreditando no binômio ‘‘qualidade intelectual e utilidade social’’ dos livros, Ênio Silveira abriu os olhos dos leitores para uma realidade intelectual inédita, lançando jovens autores e ensaístas como Leandro Konder, Paulo Francis, Nelson Werneck Sodré (que, ao lado de Moacyr Félix, ajudaram-no a dirigir a Civilização Brasileira), Márcio Moreira Alves e Otto Maria Carpeaux.
Traduziu também clássicos da literatura internacional e da filosofia (ao mesmo tempo em que editou ‘‘Os Três Profetas’’, de Issac Deutscher, também publicou ‘‘A Sagrada Família’’, de Raymond Aron, um manifesto antimarxista). Nos anos 80, em dificuldades financeiras, foi obrigado a admitir novos sócios na Civilização Brasileira e acabou por se integrar ao grupo Bertrand Brasil, perdendo a posse da editora e restringindo-se ao trabalho de editor. Em 11 de janeiro de 1996, morreu, vítima de um edema pulmonar. ‘‘O trabalho do editor é uma missão; uma missão que deve, necessariamente, ser educativa e subversiva ao mesmo tempo’’, definia-se Ênio Silveira. Ele cumpriu essa tarefa como poucos.

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