''Justa Causa'' discute o papel da imprensa
Justa Causa discute
o papel da imprensa
Estelio Feldman
Não há quem desconheça o papel da imprensa livre em um país democrático. Revelando abusos e fraudes, denunciando a corrupção, ela presta um serviço inestimável. E, por vezes, chega a ser um poderoso agente até para a queda de governos aparentemente sólidos. Inclusive em países de tradição democrática maior que a nossa. Para não ir longe, sem sequer ser necessário desenterrar denúncias feitas há mais de um quarto de século, envolvendo ministros britânicos, basta rememorar o famoso escândalo de Watergate, que levou muitos secretários (o equivalente a nossos ministros) do Governo à prisão e o presidente norte-americano Richard Nixon à renúncia. Quem desvendou toda a trama, como se recorda, foi o jornal Washington Post.
Assim, um romance como Justa Causa (Editora Record), que relata a atuação de jornalistas norte-americanos, investigando e denunciando manobras ilegais em um gigantesco negócio envolvendo Estados Unidos, França e China, não chega a parecer muito ficcional. O repórter, Eric Truell, um jovem e dinâmico jornalista, parece com aqueles outros revelados após o escândalo Watergate, um idealista voltado para a notícia, um profissional escrupuloso que se envolve demais e que acaba indo muito longe no seu empenho e zelo.
Este é o tema de Justa Causa, romance do escritor e jornalista David Ignatius, que chega a ser apontado até pela CIA como um autor que relata a expressão da verdade. Este reconhecimento é tanto mais importante quando se sabe que no citado romance o jornalista Truell acaba envolvido com a CIA, em uma perigosa e complicada situação que põe em risco até sua própria credibilidade e sua carreira. Na verdade, o Justa Causa do título diz respeito exatamente a uma conceituação do jornal em que Eric trabalha e que considera que uma ligação entre o jornalista e qualquer órgão de Governo constitui motivo para demissão com justa causa.
Truell acaba se envolvendo com a CIA e com alguns verdadeiros criminosos do mais alto escalão, envolvidos em negociatas e crimes, em um contexto conduzido de modo bastante apropriado, dando ao leitor, quase sempre, a impressão de que está acompanhando fatos reais. Enfim, como se diz costumeiramente, ficção e realidade andam se confundindo muito neste mundo globalizado.
Justa Causa é um atraente romance, que se lê com curiosidade e que, sem dúvida, oferece importante contribuição para a análise do papel da imprensa na vida moderna.





