O 57º Salão Paranaense, a maior vitrine do Estado no que diz respeito à arte contemporânea, começou a ser delineada nos dois últimos dias da semana passada. Na sexta e sábado o júri formado por Fernando Cocchiarale, Carlos Perrone e Uiara Bartira analisou no Museu de Arte Contemporânea, responsável pelo evento, aproximadamente 1.500 dossiês de 518 autores. Os selecionados nesta primeira análise passarão por uma segunda fase em novembro, quando serão conhecidos os premiados.
A entrevista coletiva realizada no local, às 11 horas de sexta-feira, que deveria girar em torno do trabalho dos especialistas, teve alguns momentos conturbados pela impaciência de Cocchiarale com a imprensa. Bastou uma primeira pergunta à mesa, para que ele se mostrasse indignado, e tornasse o clima tenso durante o transcorrer da conversa.
Em vez de discordar sobre a validade da pergunta – quais os parâmetros que estão sendo usados para o trabalho de seleção das obras? –, o professor da PUC e da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (RJ), começou ironizando: ‘‘Esse é um assunto que me interessa muito: por que não se pergunta a uma junta médica quais são os parâmetros que ela está usando para avaliar um paciente? Por que não se pergunta a um grupo de físicos quais os parâmetros...?’’
Numa longa exposição sobre o tema – que ele viria a tocar diversas vezes, pelo menos nos próximos 60 minutos – comentou que ‘‘essa questão de critério é uma coisa que interessa sobretudo a quem não entra depois que o salão foi realizado’’. Como disse, ‘‘a avaliação é feita pelo olhar, e o olhar é oposto, irredutível à palavra’’.
Mantendo-se na defensiva, respondeu a uma repórter que pediu uma impressão dos jurados sobre os 100 dossiês que tinham sido analisados até aquele momento: ‘‘Parece que aqui é um passeio do gosto: um do sushi, outro de chocolate. Não é nada disso. Todas as pessoas têm experiências diferentes, mas existem pontos em comum. Fomos absolutamente unânimes para o não, e para o sim estamos deixando – para o que haja divergência – para depois discutir’’.
Uiara Bartira, bacharel em pintura pela Embap, radicada no Rio de Janeiro e responsável pela formação de uma geração de professores de gravura, não compactuou do estresse. Sem precisar agredir discorreu sobre a importância do olhar e do conhecimento para separar o joio do trigo na seara artística. ‘‘Nós três somos docentes e temos um olhar não só visual, mas também de um caminho desse artista – de onde vem, para onde vai.’’
Entende Bartira que o parâmetro, neste caso, é o conhecimento. E mais: para se entender a arte moderna basta ter ‘‘um pouquinho de Jung, de Nietszche’’. Entrando na roda, o terceiro jurado, Carlos Perrone, professor de Estética e História da Arte na Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado, opinou:
– Acho que a questão dos critérios é menos um princípio e mais uma resposta que se dá. Acho que os critérios ficarão visíveis no resultado do salão nas paredes. O critério será visível, não falado.
A velocidade cada vez mais atordoante em que o homem está metido, reflete-se na criação e faz com que as linguagens surjam hoje e sejam velhas amanhã. Nestes tempos qual seria a tendência da arte contemporânea? Para Fernando Cocchiarale o final do século é marcado pela particularidade de que ‘‘a tendência é não ter tendência’’.
Numa visão mais abrangente pode-se avaliar a contemporaneidade ‘‘pelo desrespeito total àquilo que se supunha como natural à arte. Pintura não é natural à arte, desenho não é natural à arte, gravura não é natural à arte. Nada é natural na cultura’’.
O artista, hoje, não é necessariamente aquele que cria. ‘‘O artista contemporâneo, muitas vezes é sujeito de uma atitude, mais do que uma obra. Muito mais importante que a obra, às vezes é a atitude dele. A obra é como se fosse uma sequela, um resíduo de alguma coisa’’, sustentou Cocchiarale. Um exemplo? Waleska Soares, brasileira que mora nos Estados Unidos, e encheu uma sala de rosas, na Bienal. ‘‘Aquilo era um Magritte instalado’’, lembrou o crítico, citando o artista belga.
Com tantas referências e digressões artísticas, foi inevitável uma pergunta: afinal de contas, a arte contemporânea quer se comunicar com alguém? Pelo jeito, durante algum tempo ela ainda estará restrita aos olhares educados nos museus, galerias e exposições direcionadas para poucos, pelo que se depreende da afirmativa de Cocchiarale:
– Nós vivemos num mundo de especialistas. O que o economista fala, e a maioria das pessoas não entende; não entendo por quê a arte deveria fugir a essa regra. A arte na verdade, hoje em dia, é uma coisa feita para especialistas.
À insistência sobre o por quê dessa restrição a iniciados, o professor voltou a irritar-se. ‘‘Por que a física tem que ficar restrita? A química, a medicina? Você quer coisa mais restrita do que as pirâmides do Egito que eram feitas para cadáveres? Vamos destruir as pirâmides do Egito que eram feitas para um morto, e para ninguém ver. Nós só vemos a arte egípcia por causa de um estupro cultural das potências ocidentais. A arte egípcia era feita para uma múmia’’.
Enfim, ‘‘a arte não é para o povo, é de um povo’’, alegou. ‘‘Então não peçam da arte aquilo que nenhuma outra atividade humana no mundo contemporâneo, dá: comunicabilidade universal. Sandy e Jr, por essa sua lógica, é melhor do que Picasso, porque comunica com todo mundo’’.
Já que o assunto era comunicação, por que os artistas plásticos costumam ser tão empolados em seus discursos, dando volteios quando poderiam ser mais explícitos? ‘‘Meu caro, você não pode esperar que um artista escreva com clareza. A função não é se comunicar pela palavra’’, devolveu.
Nessa manhã ele próprio jogou para a imprensa um discurso pedante: ‘‘Critério é uma coisa que o é ou não é. E em arte você não tem o é ou não é. A arte é uma coisa que navega entre o 9 e o 79. O 80 e o 8 é um problema binário do pensamento verbal. Não é uma coisa da realidade visual’’.